quarta-feira, 22 de abril de 2009

CD - Lamb of God "Sacrament" (2006)

Existem bandas que eu levo um certo tempo para começar a gostar. Foi o caso do Metallica: no início achava o som detestável, mas depois que vi os caras tocando ao vivo no tributo ao Freddie Mercury mudei completamente de opinião e desde então se trata de uma das minhas bandas favoritas. Com Lamb of God pode-se dizer que é algo similar. Tomei conhecimento há uns 2 ou 3 anos, quando vi a capa de uma Guitar World na qual anunciava a nova onda de bandas de metal americanas. Durante algum tempo, no início dos anos 2000, a onda de bandas de metal americanas era composta pelas que tocavam o som que se convencionou chamar de "new metal", ou "nu metal", pela combinação (não inovadora, diga-se) de metal e hip-hop ou rap. Então, toda banda americana que apareceu nesse período podia ser confundida com o "nu metal", mas o destaque da revista para a "nova onda" enfatizava que havia bandas com músicos altamente técnicos, e que compunham músicas no velho estilo "thrash metal" mas com resultados ainda mais agressivos. As três bandas que apareciam na capa eram Lamb of God, Mastodon e Trivium.

Ouvi alguns mp3 e não fiquei impressionado de início. Afinal, gosto de vocais melódicos e essas bandas tinham vocais gritados. Além disso, as guitarras eram tecnicamente muito eficientes, mas os riffs complicados demais embolavam o som; assim, toda vez que ouvia uma música parecia que estava ouvindo-a pela primeira vez - não havia nada de reconhecível ou identificável ou memorável.

Mesmo assim, permaneci intrigado, e ano passado o Barboza mostrou parte dos CDs e vídeos que ele tem do Lamb of God. Há um ano atrás comecei a tentar ouvir os discos da banda que baixei, mas a tarefa era realmente complicada. A música que realmente parecia boa era "Redneck", não por acaso indicada para Grammy e tal.

Não há discos de Lamb of God lançados no Brasil. E em versão importada o preço é abusivo. Tive que esperar, então, a oportunidade para, em Buenos Aires, encontrar o disco "Sacrament", de 2006, por aproximadamente 25 reais, na Ateneo (na Musimundo não tinha, apesar de lá ter quase tudo e com preço mais barato).

Parece-me que há de comum nessas bandas da "new wave of american metal" é que os primeiros discos têm som brutal, de difícil audição, e os discos mais recentes são mais tranquilos para ouvir. Esse é o caso de "Sacrament", que até então era o disco mais bem sucedido dos caras, com boa aparição no Top 200 da Billboard.

Lamb of God é conhecida pelos riffs complicados executados em alta velocidade. Só ouvindo as músicas é difícil identificar em que região do braço da guitarra está sendo executado determinado riff. Então, mais do que nunca, para curtir integralmente o som dos caras é importante ver os guitarristas tocando. O som é pesado, e durante esse tempo todo não sabia qual era a afinação utilizada pelos caras. Dias atrás resolvi plugar a guitarra e fazer uma jam com o CD para descobrir, então, que os riffs utilizam bastante a nota D e verifiquei, depois, que isso não era por acaso, pois a afinação das guitarras do Lamb of God é nada menos que o tradicional e para mim muito familiar drop-D. Isso facilitou um monte as coisas, embora a reprodução dos riffs não tenha se tornado imediatamente fácil (principalmente pela palhetada da mão direita, que ainda estou tentando readquirir).

Músicas legais de "Sacrament" são a faixa de abertura, "Walk With Me in Hell", o hit "Redneck" e a última, "Beating on Death´s Door". A primeira conta com um riff que é bem parecido com um que eu e o Bruce costumávamos tocar, há mais de 7 anos, numa jam que chamávamos de "Swimming in the Nile". "Redneck" tem o melhor riff da banda, muito legal mesmo, e do qual me insipirei para fazer um que gravei ano passado (um dos riffs de "Obliviuos"); há ainda um refrão marcante, digamos assim. "Beating on Death´s Door" é uma pauleira de uma correria, que lembra Motorhead na levada.

É inevitável pensar em Pantera durante a audição de um disco como esse do Lamb of God, mas a comparação é por mera aproximação devido ao peso das guitarras e aos vocais agressivos, mas a banda texana leva vantagem na criação de riffs memoráveis ("I´m Broken", "Yesterday Don´t Mean Shit", "Drag the Waters", "Walk", "Cemetery Gates") e na diversidade de andamento das faixas (há faixas rápidas, lentas, ultrarápidas, cadenciadas, etc). Seja como for, é altamente recomendável prestigiar bandas como Lamb of God, que levam a sério a composição de riffs bons de guitarra e de músicas boas de heavy metal.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

CD - Return to Forever "Returns" (2008)

Depois de muitos anos ouvindo os discos das bandas de jazz fusion apenas por mp3, por encontrá-los apenas nas bocas do disco, importados e com preços exorbitantes para os padrões nacionais, em 2008 finalmente vi lançados por aqui 5 discos da Mahavishnu Orchestra e outros 5 do Weather Report, em caixas especiais, sem encartes e com preço promocional. Isso aplacou um pouco a minha ansiedade, mas ainda faltava o Return to Forever. Afinal, essa banda também é do tipo que conta com músicos extraordinários (Chick Corea, Stanley Clarke, Lenny White e Bill Connors, substituído em seguida por Al Di Meola) e composições muito legais.

No decorrer de 2008 tomei notícia da reunião da formação Corea/Clarke/White/Di Meola para uma turnê nos EUA e Europa. E o resultado disso apareceu por aqui esse ano, no disco duplo ao vivo "Return to Forever Returns". Fiquei sabendo do lançamento do disco no site da Cultura e imediatamente fui atrás do disco - e o preço mais baixo que achei - 22 pila - foi na Fnac.

Alguns dos maiores clássicos - não todos - se fazem presentes, como a fantásitca "Hymn of the Seventh Galaxy" (a melhor, particularmente falando - desde logo os caras mostram extrema fluidez na execução dessa música com muitas dinâmicas), além de "Romantic Warrior" e "No Mistery". Além de faixas da banda, há espaços generosos para os solos dos integrantes. No caso de Al Di Meola, o cara aproveitou para executar uma de suas mais conhecidas, a acústica e matadora "Mediterranean Sundance". Uma coisa que é preciso ouvir é a fritação inacreditável em "Duel of the Jester and the Tyrant", com performances absurdas de todos os integrantes (nem consigo imaginar como Lenny White toca tanto na bateria - impõe-se um DVD desse show).

Achei exagerado, no entanto, os espaços para os solos. Afinal, o disco pode se dividir em dois momentos: os músicos solando sozinhos e os músicos solando acompanhados, pois há longas jams no decorrer das faixas. Tantos solos e tantas jams acabam dispersando a audição. Senti falta da minha música favorita dos caras, "Medieval Overture".

Após uma reunião tão bem sucedida como essa do Return to Forever, calharia bem uma similar da Mahavisnhu Orchestra e do Weather Report.

sábado, 18 de abril de 2009

Discos essenciais - Black Sabbath “Dehumanizer” (1992)

Antes do Heaven and Hell, o Black Sabbath, i. é, Tony Iommi, já havia tentado fazer o retorno da formação do disco “Mob Rules” de 1981, frutificando no excelente “Dehumanizer”. Esse tipo de reunião se tornou comum mais recentemente, mas o fato é que Iommi tentava manter o Sabbath em atividade com lançamentos regulares e Dio tentava manter sua carreira-solo da mesma forma. Não sei se a hora foi a correta, mas o resultado foi primoroso.

Lembro que “TV Crimes” passava no Gas Total. Na época não dei muita bola, mas fiz proposta para o meu colega de faculdade João Carlos e levei o disco para casa (10 pila, mesmo preço do balaio de uma loja de cds que tinha no 2.º andar da Galeria Chaves). O disco já abre com uma vigorosa introdução de bateria de Vinnie Appice em “Computer God”. Os riffs são meio incomuns, com várias paradas, mas o efeito todo é muito legal. Os primeiros versos são memoráveis - Dio sempre foi muito competente nesse sentido, e é senso comum dizer-se que ele é um vocalista com muito mais recursos que Ozzy.

Em “Dehumanizer” todas as músicas são boas. Em todas elas há momentos dignos de atenção, como os versos de “I”, o riff descendente e toda a interpretação de Dio em “After All (The Dead)”, o riff com Power chords, a levada na caixa da bateria durante os versos, o refrão arrasa-quarteirão, e a mudança antes do solo de guitarra em “TV Crimes” (a melhor faixa, sem dúvida, uma das minhas favoritas da banda), o riff e a levada de "Time Machine", entre outros.

As composições são fortes e altamente inspiradoras. Essa formação com Dio/Iommi/Butler/Appice atua, presentemente, sob o nome de Heaven and Hell e ouvi uma prévia do disco que está para ser lançado, "The Devil You Know". E o clima é bem parecido, com riffs bem pesados e andamento mais lento, bem ao gosto do Dio (como pude descobrir após uma entrevista do Doug Aldrich divulgada em um site nacional de música pesada há alguns anos). Particularmente acho que Iommi perdeu muito tempo deixando de compor e gravar com Dio, e o próprio Butler admitiu recentemente em entrevista divulgada pelo mesmo site nacional de música pesada que se a reunião fosse com Ozzy o ritmo teria sido muito mais lento, e poucas músicas teriam sido compostas. Sou adepto do entendimento de que as bandas importantes devem lançar discos regularmente e no caso do Black Sabbath isso fica mais fácil com Dio nos vocais (embora admita que algum outro vocalista como Tony Martin seria uma boa também).

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Interpretação constitucional – a questão das medidas provisórias e o trancamento de pauta

Interpretação constitucional é um dos meus temas preferidos e nas últimas semanas noticiou-se um exemplo notável de mudança da norma sem alteração do texto. Mais especificamente, trata-se da interpretação preconizada por Michel Temer, presidente da Câmara dos Deputados e conhecido constitucionalista e constituinte, do art. 62, § 6.º da CF/88, com a redação dada pela EC 32/2001.

Sabe-se que norma não é o mesmo que texto legal; além disso, é comum dizer-se que o característico das ciências do espírito – dentre as quais o direito – é a aptidão para a releitura e para a formação de novas convicções sobre os mesmos textos.

No caso, jamais houve qualquer dúvida a respeito do art. 62, § 6.º da CF/88, segundo o qual “se a medida provisória não for apreciada em até quarenta e cinco dias contados de sua publicação, entrará em regime de urgência, subsequentemente, em cada uma das Casas do Congresso Nacional, ficando sobrestadas, até que se ultime a votação, todas as demais deliberações legislativas da Casa em que estiver tramitando”. Esse é o chamado trancamento da pauta: não apreciada em até 45 dias a partir da sua publicação, a medida provisória entra em regime de urgência, e isso significa que até que se ultime a sua votação, ficam sobrestadas todas as demais deliberações legislativas da Casa em que estiver tramitando.

Tendo em vista a edição contumaz de medidas provisórias, o trancamento de pauta é muito comum, e há uma grande queixa dos congressistas em relação a esse obstáculo ao regular andamento dos trabalhos legislativos, causada pelo exercício – para alguns ilegítimo ou indevido ou exagerado – do poder ou faculdade do Presidente da República de editar medidas provisórias.

Noticiou-se, então, que Michel Temer defendeu uma nova interpretação do art. 62, § 6.º da CF/88: a oração “todas as demais deliberações legislativas” deveria ser entendida como deliberações a respeito de proposições legislativas aptas a serem veiculadas por medida provisória. Em outras palavras, ficariam sobrestadas as deliberações sobre projetos de lei ordinária; por outro lado, não ficariam sobrestadas as deliberações sobre emendas constitucionais, leis complementares, resoluções e tudo quanto não pudesse ser objeto de medidas provisórias (inclusive as matérias previstas no art. 62, § 1.º da CF/88), e nem fica trancada a pauta das deliberações extraordinárias (art. 57, § 6.º da CF/88 – apesar do art. 57, § 8.º da CF/88).

Não demorou e alguns congressistas ingressaram com mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal para impugnar essa interpretação dada por Michel Temer. O processo ficou sob a relatoria do Min. Celso de Mello e o site do STF divulgou o inteiro teor da decisão liminar.

A impetração de mandado de segurança por parlamentares para impugnação de ato praticado em sede de processo legislativo é admitida por conhecida jurisprudência do STF, segundo a qual seria direito público subjetivo do parlamentar a participação em processo legislativo que siga as normas constitucionais, ou dito de outro modo, direito a não participar de processo legislativo que viole normas constitucionais. Assim, os parlamentares têm legitimidade ativa para a impetração do mandado de segurança nessas hipóteses.

Superada essa questão, surge outra, preliminar ainda, que diz respeito a saber se a controvérsia é meramente interna corporis ou não, sabendo-se que o STF rejeita a intromissão em discussões internas da casa legislativa, como atos regimentais. O Min. Celso de Mello enfatizou que a questão seria uma verdadeira controvérsia (ou litígio, como disse o Min.) constitucional – afinal, trata-se da interpretação de um dispositivo da Constituição – ficando, de um lado o Presidente da Câmara dos Deputados, e de outro, um grupo de parlamentares. Em apertada síntese, em sede de jurisdição constitucional – e no âmbito de um Estado Democrático de Direito - não haveria que se falar em intromissão indevida do Judiciário na tarefa constitucionalmente atribuída ao Legislativo, pois é próprio da jurisdição constitucional a “contenção de eventuais excessos, abusos ou omissões alegadamente transgressoras do texto da Constituição da República, não importando a condição institucional que ostente o órgão estatal – por mais elevada que seja sua posição na estrutura institucional do Estado – de que emanem tais condutas”.

Então, os parlamentares têm legitimidade para impetrar mandado de segurança com a finalidade de impugnar interpretação conferida pelo Presidente da Câmara dos Deputados a um texto da Constituição; além disso, em sendo identificada um litígio constitucional, o STF tem competência para conhecer e julgar a causa.

No mérito, o Min. Celso de Mello prestigiou a orientação de Michel Temer, que seria consentânea com a divisão constitucional de funções (ou poderes), tendo em vista a tendência dos Presidentes da República de editarem medidas provisórias de forma desmedida (“a crescente apropriação institucional do poder de legislar, por parte dos sucessivos Presidentes da República, tem causado profundas distorções que se projetam no plano das relações políticas entre os Poderes Executivo e Legislativo”; “o exercício compulsivo da competência extraordinária de editar medida provisória culminou por introduzir, no processo institucional brasileiro, verdadeiro cesarismo governamental em matéria legislativa, provocando graves distorções no modelo político e gerando sérias disfunções comprometedoras da integridade do princípio constitucional da separação de poderes”).

A cobertura da imprensa geralmente fica centrada nos desvios praticados pelas casas legislativas – recentemente se fala nos excessivos e injustificados gastos do Senado Federal – e na sua atividade fiscalizatória no âmbito das CPIs. Some-se a isso, no meu caso e provavelmente no caso de muitos, à deficiência no acompanhamento dos trabalhos legislativo. Então não consigo aferir o quanto que o trancamento de pauta por uma medida provisória prejudica o andamento dos trabalhos legislativos, embora admita que teoricamente é fácil de ver uma certa perturbação na separação das funções estatais, e é certo que há muitos doutrinadores apontando e criticando o exercício exagerado do poder de editar medidas provisórias e a consequente perda de autoridade da casa legislativa na programação e conclusão dos trabalhos legislativos.

Se existe risco de “exegeses que estabeleçam a preponderância institucional de um dos Poderes do Estado sobre os demais, notadamente se, de tal interpretação, puder resultar o comprometimento (ou, até mesmo, a esterilização) do normal exercício, pelos órgãos da soberania nacional, das funções típicas que lhes foram outorgadas”, então é bom e é imperioso concluir que “a Lei Fundamental há de ser interpretada de modo compatível com o postulado da separação de poderes”.

Diante disso, “ao menos em juízo de sumária cognição”, o Min. Celso de Mello teve por descaracterizada “a plausibilidade jurídica da pretensão mandamental” dos parlamentares que se insurgiram contra a interpretação de Michel Temer.

Conforme consta do relatório da decisão do Min. Celso de Mello, segundo as palavras do próprio Michel Temer, a famigerada interpretação consiste numa interpretação sistêmica do seguinte tipo: num Estado Democrático de Direito, no qual os poderes estatais são de igual equivalência, e as funções estatais são distribuídas constitucionalmente, a tarefa de legislar incumbe precipuamente ao Poder Legislativo e a edição de medidas provisórias pelo Presidente da República se caracteriza como uma exceção, e como tal deve ser tomada – a consequência disso é que a exceção deve ser interpretada restritivamente. Partindo, então, da vedação da utilização de medidas provisórias para tratar de matérias próprias de emenda constitucional (art. 60 da CF/88), de lei complementar (art. 62, § 1.º, III da CF/88), de decreto legislativo (art. 49 da CF/88), de resolução sobre o Regimento Interno da Câmara ou Senado (art. 51 e art. 52 da CF/88), e das matérias vedadas expressamente pelo art. 62, § 1.º da CF/88, concluiu-se que o regime de urgência ao qual se submete a medida provisória não apreciada em até 45 dias só causa o sobrestamento das deliberações legislativas que, em relação à forma ou à matéria, poderiam ser veiculadas em medida provisória. Em outras palavras, as deliberações legislativas sobre emendas constitucionais, leis complementares, resoluções, decretos legislativos e projetos de leis sobre matérias referidas no art. 62, § 1.º da CF/88 não têm sua tramitação sobrestada por medida provisória em regime de urgência.

Isso só reforça a minha convicção de que, apesar de ser importante saber o texto da lei, é mais importante conhecer o que se entende do texto da lei (a norma), pois nesse caso se viu que “todas as demais deliberações legislativas” não quer significar, efetivamente, “todas as demais deliberações legislativas”, pois “algumas” não ficam sobrestadas pelo regime de urgência da medida provisória.

domingo, 22 de março de 2009

Discos Essenciais - King Diamond "Them" (1987)

Geralmente se diz que "Abigail" é o disco clássico de King Diamond, no qual ele conseguiu realmente escrever um álbum conceitual com composições boas de heavy metal europeu, mas o meu preferido é "Them", especialmente por contar com três músicas perfeitas: "The Invisible Guest", "Bye, Bye, Missy" e "Welcome Home". Essa última tem uma porção de riffs legais, e recentemente vi no youtube um vídeo de um cara tocando essa música na guitarra e o resultado é espantoso. Além disso, parece ser a preferida de todos os apirantes a King Diamond (existem vários vídeos de caras tentando alcançar os altos registros de King nessa faixa; inclusive isso apareceu, de certa forma, no filme "Clerks 2"). Para finalizar, a música é ainda conhecida pela introdução de bateria de Mikkey Dee: apesar de curta (dura aproximadamente dois segundos), tem um efeito notável e até serviu para Mike Portnoy "prestar uma homenagem" aplicando-a na introdução de uma faixa do Dream Theater ("Honour Thy Father").

"The Invisible Guest" é outra que tem riffs matadores na guitarra e andamentos empolgantes na bateria, e tem até um refrão pegajoso (pelo menos para o padrão King Diamond). "Bye, Bye, Missy" não é tão rápida e tem um riff pouco mais tradicional, mas a quebradeira dos tempos não demora e torna a música muito interessante. Essas duas faixas em versão instrumental, tirada de ensaios nos quais as guitarras são tocadas por Andy La Roque e pelo próprio King Diamond (o substituto de Michael Denner ainda não havia sido escolhido); essas versões são talvez mais fáceis de ouvir para quem não curte o vocal de King Diamond, e para mim serviu para reparar o quão bom é o trabalho de guitarras e bateria dessa banda.

Não lembro exatamente a partir de qual momento firmei a convicção de que tinha de comprar esse cd (i. é, se já tinha ouvido algum mp3, ou se já sabia dessas versões bônus instrumentais), mas o fato é que encontrei o disco depois de muita procura numa loja que já não existe mais na R. Senhor dos Passos, quase esquina com a Andradas, há uns 10 ou 11 anos atrás.

Esse disco é essencial pelo trabalho "flawless" de guitarras e bateria, no melhor estilo heavy metal europeu (muitos riffs técnicos e bastante semicolcheias, como dizem).

sábado, 21 de março de 2009

CD - King Diamond "Conspiracy" (1988)

Na véspera do 1.ª show da Burnin´ Boat adquiri um disco do King Diamond, "Conspiracy", que ouvi na loja mesmo (uma que ficava perto do atual Dado Garden) e curti alguns riffs. Na época não sabia, mas é possível afirmar que de King Diamond e de Mercyful Fate se podem esperar, sempre, um heavy metal muito técnico, executado com perfeição, e de muito boa qualidade. E com guitarras tão legais (cortesia de Andy La Roque e um outro guitarrista, sendo que King compõe a maioria das faixas - revelando um talento incomum para a criação de riffs cavalos) e bateria tão boa (Mikkey Dee é "o cara") fica fácil prestar atenção mais na parte musical e menos nos vocais de King Diamond. Admito que a tarefa de acostumar com as vozes que o dinamarquês adota (ora falsete, ora gutural) demora um pouco para se consolidar; mas o esforço compensa, pois os riffs e as levadas de bateria são matadoras.

Sabe-se que King Diamond é o vocalista do Mercyful Fate, que se lançou em carreira solo tão logo a banda dinamarquesa se dispersou após o lançamento de dois discos ("Melissa" e "Don´t Break the Oath", ambos tidos como muito importantes e influenciáveis discos de heavy metal). Nos seus discos solo, King Diamond desenvolveu o costume de escrever álbuns conceituais; geralmente acho que isso de "álbum conceitual" acaba comprometendo o resultado final, pois as faixas são colocadas em função da história a ser contada, o que pode perturbar a audição do disco com o tempo. Custou-me, então, vários anos para digerir boa parte do material do King Diamond, diferentemente do que se verificou com relação à discografia do Mercyful Fate (que adquiri inteira e cuja audição considero mais pacífica).

Vale a pena ouvir três discos do King Diamond: "Abigail", o seu maior sucesso, "Them", o meu preferido, e "Conspiracy", que é a continuação da história contada em "Them". Em todos o baterista é Mikkey Dee, e isso significa que se tratam de discos com uma levada de bateria heavy metal perfeita; o sueco é o melhor baterista do gênero que conheço, sendo capaz de criar partes tão memoráveis quanto os riffs e refrões das respectivas músicas. Esse "Conspiracy" foi o último de Dee com Diamond, e não estou certo porquê, mas foi o primeiro que adquiri da banda.

Apesar de ter gostado da prévia na loja (houve época em que havia um espaço destinado a audições, e costumava me valer disso; invariavelmente acabava levando algum disco por ter curtido algum riff ou levada que parecia inspirada ou inspiradora) não me abri imediatamente para o disco. Mas há que se dar valor a esse "Conspiracy", tirante a questão da execução das composições. Há bons riffs em "Sleepness Nights" (o riff inicial tem harmônicos artificiais à la Zakk Wylde), e choruses marcantes em "Sleepness Nights" e "A Visit from the Dead" (nesta a partir dos 3min25s); a dinâmica de "At the Graves", faixa de abertura, é muito boa, mas é preciso ter disposição para ouvir seus grandiosos 9min (é complexa, com muitas partes e andamentos diferentes). A complexidade das composições é uma característica de King Diamond nessa época - meados dos anos 1980 - e que acabou um pouco sacrificada durante os anos 1990. Então todas as faixas de "Conspiracy" - e dos discos anteriores em maior ou menor medida - contêm várias partes, algumas das quais bem elaboradas para guitarra e bateria, e certamente as mais rápidas e mais pesadas são as melhores.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Ensaio - The Osmar Band: "Christine Sixteen" 17.02.2009

Depois de um ensaio tão legal como foi o 15.º, e confirmada a presença do Paulinho para o 16.º, sabia que não poderia perder o último ensaio antes do carnaval, e assim tive rodada dupla: Grêmio 3x0 Brasil de Pelotas no Estádio Olímpico às 20h30min, e depois o ensaio. Quando cheguei os caras já estavam embalados enumerando vários hits, mas ainda deu tempo para aprender - finalmente - os acordes (E-B-A) de uma música muito antiga e clássica da banda, cuja letra - pelo que entendi das histórias e dos comentários - é homenagem a um figuraça que eles conhecem desde tempos atrás. Como não levei o meu equipamento, toquei o baixo que tem lá com captadores ativos (e tomei uns pequenos choques até o Marcão ajeitar os plugues). Resgatamos uma excelente, também das antigas, que é tocada nos acordes G e C9, e que tem letra, digamos, erótica. Outra que é do período anterior ao meu ingresso na banda, com letra irônica sobre um fato policial envolvendo autoridades que ocorreu em 2007 e que trouxe alguma inquietação no meio jurídico, sobre os acordes A e E, também ficou legal. É bom tomar contato com esses hits antigos, para aumentar o repertório dos ensaios e manter todas as músicas tanto quanto possível "executáveis". Os caras tocaram, ainda, uma que parece também dos idos tempos, e pelo nome é homenagem ao (ou do) Marcão, que começa com o riff de "Bad to the Bone" do George Thorogood tocado 3 vezes, e que depois uma descida cromática, encerra abruptamente, para então recomeçar tudo de novo. Para finalizar, gravamos uma versão com violão e baixo para aquela do sotaque de um estado do centro do país, que já estamos tocando perfeitamente e que segue:

O Marcelo disponibilizou na rede o vídeo que o Paulinho fez para uma música antiga (que eles próprios não lembravam); o vídeo é matador (legal e engraçado), e merece reprodução neste espaço:

sábado, 14 de fevereiro de 2009

CD - Yes "90125"

Já escrevi sobre como às vezes (i.é, quando possível) aguardo o melhor momento para comprar um cd, entendido melhor momento como preço mais em conta. Com o tempo percebi que um bom disco lançado há muitos anos e que é colocado novamente nas prateleiras das lojas de cds por preço igual ao de um lançamento (tipo 30 reais) pode, mais tarde, ser colocado em balaio de promoções. Esse foi exatamente o caso de "90125" do Yes. Bem no começo deste blog, escrevi sobre os discos que considero marcantes do Yes, e é consenso que a melhor fase da banda é a da década de 1970, na qual se dedicava ao rock progressivo, pois na década de 1980 e na era da MTV o Yes mudou parte de sua formação consagrada e abandonou a sua marca registrada para lançar discos voltados ao pop-rock de rádio - e talvez não seja exagero dizer que poderiam ser consideradas duas bandas diferentes, o Yes de 1970 e o Yes de 1980, já que um tem pouco a ver com o outro. A banda continua em atividade, mas é notória a preferência pela formação e repertório da época progressiva, o que não serve para desmerecer o material dos anos 1980.

Admito que essa conclusão só me permiti tomar mais recentemente. Em 2000 firmei a convicção de que seria uma boa comprar esse cd "90125", mas o preço sempre foi proibitivo, de modo que somente em 2006 que veio ao condição favorável que tanto esperei: encontrei o disco no balaio das Americanas do Moinhos por 14,99.

Todos sabem o que "90125" representou para o Yes e para o pop-rock em geral; para o Yes foi um novo fôlego para uma trajetória em declínio, pois o auge havia sido em 1971/1972 com "Fragile" e "Close to the Edge", e os caras dividiram opiniões com um disco duplo com apenas quatro músicas, todas com mais de 15min ("Tales From Topographic Oceans"), que acarretou a saída de Rick Wakeman, a gravação de mais um disco grandioso em 1974 ("Relayer"), o retorno de Wakeman e o registro de dois discos com músicas mais curtas, em atenção aos tempos desfavoráveis ("Going for the One" e "Tormato"), e a gravação de um disco essencial e praticamente ignorado pela ausência de Jon Anderson ("Drama" de 1980). A banda praticamente acabou por essa época, sendo que Chris Squire e Alan White tentaram se manter ativos ensaiando com Jimmy Page para formar uma banda nova que alguém falou que se chamaria XYZ ("ex- Yes e Zeppelin"); Squire e White acharam, então, o guitarrista e compositor talentoso Trevor Rabin e chamaram Tony Kaye; Anderson curtiu o material e resolveram lançar essas novas composições sob o nome de Yes. Para o pop-rock, "90125" contribuiu com uma faixa que entrou para a história do gênero, "Owner of a Lonely Heart".

Atribuo o sucesso desse disco ao trabalho de Rabin, pois são conhecidas as demos que ele produziu e que viraram as faixas do disco. Mas a tarefa do cara ficou bastante facilitada no caso pois Squire e White são excelentes instrumentistas (parece-me que a contribuição de Kaye é irrisória). A produção do disco é muito boa (a cargo de Trevor Horn, que foi o vocalista em "Drama"), assim como as faixas, mas admito que o som é datado na maior parte do tempo, especialmente nos vocais, na bateria e timbre de guitarra processado. Então o lance é ouvi-lo e procurar coisas para aprender.

"Owner of a Lonely Heart" é a música mais conhecida, talvez a mais famosa da banda (apesar do senso comum a respeito de "Roundabout" como hino do Yes). O riff inicial e instantaneamente reconhecível e é muito legal, com uma distorção muito boa. Mas Yes não é uma banda de rock convencional, então o riff não fica tocando o tempo todo do mesmo jeito; assim, o riff com guitarra distorcida aparece só no início - depois disso todos já estão familiarizados com a música, mas os versos são conduzidos pelo baixo tocando o riff com notas curtas e guitarra com som limpo e dedilhado

Mas é na segunda faixa, "Hold On", que os caras demonstram que são mestres. Nunca fui fã dessa música, mas uma ouvida mais atenta me permitiu concluir que aqui os caras conseguiram agregar características marcantes do Yes anos 1970 e do Yes anos 1980. O refrão é grudento, pronto para as rádios, assim como o início da música, com um teminha que identifica a música tocado logo de cara pela guitarra. Mas os versos, cantados em dueto por Squire e Anderson, algumas levadas quebradas de White durante esses versos, um riff mais pesado de guitarra lá pelas tantas, uma parada na qual são ouvidas apenas vozes sobrepostas cantando frases dos versos, é que fazem essa uma grande música da época da banda.

"It Can Happen" me parece que é o tipo de música que o Yes começou a se dedicar nos anos 1990, em discos como "Open Your Eyes", sobretudo quando ouço o refrão tipo sacada genial: "It can happen to you, it can happen to me, it can happen to everyone eventually". Diferentemente, porém, de "Open Your Eyes" tem umas guitarras interessantes e uns backing vocals de Rabin muito bons.

Uma das minhas favoritas da banda em todos os tempos é "Changes". Ouvi pela primeira vez num daqueles tantos tributos lançados pela Magna Charta, "Tales From Yesterdays", que reuniu uma quantidade de bandas e músicos talentosos e conhecidos (Steve Morse, o próprio Steve Howe, Shadow Gallery, Magellan, World Trade, Cairo, o próprio Patrick Moraz, o próprio Peter Banks. "Changes" era uma das melhores versões (executada pela banda Enchant), e acho que é até melhor que o original (o vocal de Ted Leonard leva vantagem sobre o de Trevor Rabin e sobre o de Jon Anderson). Seja como for, a música é espetacular, pelos versos bem colocados sobre um dedilhado marcante e pelo refrão matador acompanhado por uma guitarra com pausas e distorção. Aliás, essa guitarra com bastante distorção no refrão é bem incomum em se tratando de Yes, e o resultado é muito bom.

O projeto Rabin, White e Squire se chamaria Cinema, e só virou Yes a partir do ingresso de Anderson e Kaye. Nesse disco há uma faixa instrumental, registrada ao vivo no estúdio, com pouco mais de 2min e que se chama, justamente, "Cinema". É muito legal, pena que curta. White faz uma levada na caixa, Squire manda ver numa linha de baixo com bastante efeito (bem característico dele) e com vários slides longos, e uma melodia na guitarra. Belo momento do disco, dando uma amostra do que os caras fariam se o disco fosse para o lado do progressivo.

"Leave It" tem vocais principais de Rabin melhor que os de Anderson nos versos, até porque são mais num estilo de rock não muito familiar ao segundo. Aqui também tem as sobreposições de voz que caracterizam a banda. Mas a faixa se ressente do som datado da bateria, dos vocais e dos teclados.

"Our Song" começa como uma música antiga do Bon Jovi ("Runaway"), mas conta com umas guitarras distorcidas e evolui em seguida para umas partes boas de riffs com pausas, levada de baixo com os slides típicos de Squire e quebrada na bateria.

Dessas faixas mais obscuras uma das melhores é "City of Love", que tem um peso inesperado nos versos (acho que os acordes são F# e E). E o refrão é muito legal ("We´ll be waiting for the night, we´ll be waiting for the night to coooome"). Boas guitarras, bons versos e bom refrão.

O disco finaliza com uma longa e lenta, porém típica faixa do Yes: "Hearts" tem mais de 7min, um insistente riff sincopado no sintetizador, e no geral lembra o som que a banda devenvolveu nos anos 1990. A faixa só fica interessante depois da marca de 4min, com um riff rocker de guitarra.

É um disco clássico para o Yes e para o rock dos anos 1980.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Ensaio - The Osmar Band: "Alguém conhece música com '15' no título?"" 10.02.2009

Semana passada foi curta, então não deu para avisar com antecedência a ausência. Esse 15.º ensaio foi especial por um acontecimento inédito desde o meu ingresso na banda: além da tradicional platéia formada pela cachorrada, o Paulinho acompanhou o evento na íntegra, e se ocupou o tempo todo, fotografando, filmando, fazendo caricaturas muito legais, e também dando conta do back-up vocals nos principais hits da banda. Antes, porém, vimos os dois clipes (muito engraçados, acho que em breve estarão disponíveis) que ele produziu com músicas antigas dos caras, que eles sequer lembram de terem composto; além disso, atualizamos o material para os próximos clipes. Além de muito talentoso, e figuraça, o Paulinho se revelou conhecedor profundo do bom hard rock dos anos 70, do rock progressivo, do heavy metal, e também de todas as vertentes do rock; para finalizar, é a única pessoa que conheço que não curte Deep Purple mas adora Rainbow. Mais uma vez levei apenas a BFG e o XT, e estava com os dedos em forma após dois dias praticando bastante. Utilizei timbres com distorção mais rocker, então as músicas ficaram com maior pegada do que de costume - particularmente, gostei bastante. O Alemão, inicialmente, também ficou na guitarra - até arrebentar a corda D (sobrou, então, para o violão de cordas de aço). Ainda não estamos com as condições ideais de gravação, mas o Marcão arranjou uma maneira de registrar os ensaios com a filmadora e manter a qualidade do áudio (o ensaio passado, que não participei, ficou com umas gravações muito boas). Abrimos com uma da época de Rio Grande que depois tocamos no 13.ª ensaio e tem letra que se vale do sotaque de um estado do centro do país. Finalmente descobri que os acordes dessa são simplesmente Dm, G e Am, com o refrão em F e G. Fiz uns solos com pentatônica que ficaram legais da primeira vez; na segunda, valendo para a gravação, o resultado não foi tão expressivo. O mesmo se deu quando tocamos uma cuja letra versa sobre um sério problema masculino, e é sobre os acordes A G F, com refrão em F e E. Seja como for, ambas ficaram muito legais, e na última o Paulinho se empolgou e contribuiu com backing vocals. Rolou uma versão alternativa em B A G e G F#. Sem distorção, tocamos duas das minhas favoritas: uma com levada andina em G, F e E - dessa vez o Marcelo não colocou vocais -, e a outra com a sequência de acordes Am - Dmadd9 - Dmadd11 - Asus4/5+ (se ganhássemos 10mil reais para cada vez que um de nós disse que essa música é muito boa, poderíamos comprar um outro Triton ou uma Gibson Les Paul Standard - de fato, essa música é muito legal, não requer ensaios, e levou o Paulinho a dizer que se parecia com algo do Pink Floyd no disco "Animals", o que foi bom ouvir, pois é um dos meus discos favoritos da banda, conforme já escrevi aqui). Já no final, rolou outro hit, na qual faço uma linha tipo "walking bass" e depois toco os acordes C, Bb, Eb e F. Agora está ficando mais forte a convicção de eleger e ensaiar adequadamente um repertório fixo de músicas para eventual apresentação para os amigos. Abaixo segue a primeira e memorável versão da música andina, executada no longínquo 10.º ensaio:



Ao final, lancei para os caras uns cds que tenho repetidos em casa, e que são dos favoritos da coleção: o bootleg Kiss "Alive V - live at Obras Sanitarias, três do Rainbow ("Rising", "Difficult to Cure", e "Bent Out of Shape"), "Stained Class" do Judas Priest, "Tarkus" do Emerson, Lake & Palmer, "A Trick of the Tail" do Genesis, "When Dream and Day Unite" do Dream Theater. Por outro lado, o Alemão emprestou cds de três grandes guitarristas, para consolidar a troca de influências: John McLaughlin, Larry Carlton e Mike Stern.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

CD - Metallica "Death Magnetic" (2008)

Por aproximadamente 1 ano e meio acompanhei as notícias sobre as sessões de gravação do novo disco do Metallica, e desde o início se disse que se trataria de uma espécie de retorno à sonoridade da banda na época de "Ride the Lightning" ou de "...And Justice for All". Saudou-se o ingresso de Rick Rubin (RHCP, Slayer, AC/DC, entre muitos outros) na produção, em lugar de Bob Rock, e seu estilo bastante peculiar no comando das gravações (diferentemente de Bob, que ficava o tempo todo no estúdio com a banda, e nos últimos tempos já estava compondo - ?!?! - e gravando instrumentos, Rubin aparece de vez em quando só para conferir a evolução do trabalho e dar uns toques, o que lhe permite produzir diversas bandas simultaneamente). Bem, só dizer que o disco seria um retorno ao "Ride the Lightning" (não é dos meus favoritos - quando quero ouvir "Creeping Death", "For Whom the Bell Tolls" e "Fade to Black" recorro aos discos ao vivo) ou ao "...And Justice for All" (esse é um disco espetacular e essencial), por si só, não quer dizer nada, mas já é alguma coisa.

Mesmo sendo desacreditado pelos mais recentes lançamentos de todas as minhas bandas favoritas nos últimos tempos, ainda acredito ser possível o lançamento de grandes discos, então continuei acompanhando com interesse as notícias sobre o novo álbum do Metallica. Surgiram, então, no Whiplash, notícias sobre resenhas de audições prévias ao lançamento do disco. E nesses "faixa-a-faixa" basicamente todas diziam as mesmas coisas, mas não necessariamente das mesmas músicas (isto é, o que um dizia a respeito de uma música, outro dizia o mesmo a respeito de outra música...), e o denominador comum, em apertada síntese é o seguinte: músicas longas, riffs pesados, voltaram os solos virtuosos com wah-wah de Kirk Hammet, som da bateria voltou a ser aceitável, Lars Ulrich continua não sabendo tocar bateria, música instrumental muito boa sem superar "Orion", lembra muito "Ride the Lightning" e "...And Justice for All".

Casualmente estava na Cultura no dia do lançamento mundial do disco, em 13.09.2008, e conseguir trazê-lo para casa, já esperando por uma cacetada espetacular - senão pela música, pelo menos pelo som das guitarras. Botei para ouvir sem tirar, as músicas foram passando, e fiquei com a sensação de falta de peso nas guitarras e de composições não muito consistentes. Ouvi, então, mais umas quantas vezes, e nas últimas 4 ou 5 semanas (isso em novembro/2008), pelo menos 2 vezes por semana. E agora já tenho uma opinião muito mais favorável, embora seja um dos que acham que o som do disco é ruim.

Discordo de quem diz que "Death Magnetic" lembra os discos mais antigos do Metallica; em nenhum momento lembrei de qualquer coisa de "Ride the Lightning", ou "...And Justice for All", ou mesmo de "Master of Puppets". Pelo contrário, lembrei de "St. Anger" (em "The End of the Line", "Cyanide", "The Judas Kiss") e "Reload" ("The Unforgiven III" parece ter sido composta nessa época). Não entendo, também, como podem dizer que Lars Ulrich continua não sabendo tocar bateria... afinal, essa queixa eu só tinha ouvido, até hoje, do Bruce, e desde sempre discordei, pois acho que Lars improvisa bastante e toca umas levadas boas e inesperadas na bateria (o cara definiu como se utiliza o bumbo duplo num contexto heavy ou thrash metal, com "riffs de bateria" em "One", "Fade to Black" e umas levadas certeiras e até com algum groove como em "Wherever I May Roam", sem contar ainda os andamentos matadores de "For Whom the Bell Tolls" e "Sad But True"), sendo certo que neste disco achei que Lars estava no modo econômico (utilização esparsa do bumbo duplo, por exemplo).

Tão logo consegui o álbum, vim para casa e toquei-o na íntegra. Esperava um som grandioso de guitarra e uma paulada na orelha de muitos riffs espetaculares. Pois então. O disco começa bem (não "espetacularmente" bem), mas só levantei a sobrancelha com o riff da terceira música. Não sei se estava cansado pelo dia intenso e a hora adiantada, mas o fato é que a primeira impressão de "Death Magnetic" foi a de que não tinha impressionado o suficiente. Achei o som das guitarras bem magro, e posteriormente, ouvindo nos headphones, verifiquei que o som estava alto demais: para ouvi-lo tinha que botar o volume mais baixo do que o de costume, e vim a descobrir que isso virou uma queixa generalizada entre o público norte-americano (diz-se que o mesmo álbum na versão para o Guitar Hero tem som muito melhor - há inclusive uma comparação entre os dois no youtube, mas aí não sei dizer até que ponto o som não foi manipulado em um para parecer ruim e no outro para parecer excelente). O certo é que no volume costumeiro não consigo aguentar além da 2.ª faixa, e no volume mais baixo a audição dos riffs e dos detalhes das músicas fica comprometida.

Como disse, ouvi esse disco durante outubro e novembro de 2008 pelo menos duas vezes por semana, na íntegra. Agora já tenho uma opinião muito mais favorável sobre "Death Magnetic", muito embora ainda faça todos os reparos e as reservas anteriores. Acho que é um disco muito bom para essa fase do Metallica, mas custo a acreditar que, apesar de bons, esses são os melhores riffs de Hetfield e Hammet dos últimos 5 anos (i. é, desde "St. Anger").

"That Was Just Your Life" tem vocais acelerados, ficando difícil acompanhar a letra. O instrumental é bom, pelo menos. "The End of the Line" tem riff que me lembra muito a época "St. Anger". "Broken, Beat and Scarred" é excelente, com andamento cadenciado bem característico na bateria, e riff matador. "The Day That Never Comes" tem uma parte mais calma seguida de uma parte instrumental mais pesada. Algumas resenhas deram conta de que uma faixa era estranha mas divertida; para mim se trata da melhor e mais empolgante composição do disco: "All Nightmare Long" tem guitarras excelentes, riff espetacular, e refrão arrasa-quarteirão. É uma baita música. "Cyanide" me pareceu um pouco fraca, tanto em riff quanto em estrutura. Não entendo qual é a necessidade de compor uma terceira parte para "The Unforgiven", ainda mais que, particularmente, a segunda parte deixou a desejar em comparação com a primeira (que é um clássico absoluto), então ouvi "The Unforgiven III" com todas as reservas possíveis; atualmente até curto a faixa, mas me remete à época do "ReLoad". "The Judas Kiss" é uma faixa boa de ouvir, mantém o espírito e tal, mas não é nenhum clássico. Geralmente o material da época de Cliff Burton é cultuado como obra-prima, mas a mim parece que algumas vezes é super-apreciado; então não posso concordar que "Suicide & Redemption" não-chegue-aos-pés de "Orion". Acho que nem cabe a comparação (embora tentadora), mas ao final não entendo porque essa faixa não tem vocais: diferentemente de "Orion", na qual não há que se falar em letra para conduzi-la, "Suicide & Redemption" ficaria muito melhor se fosse cantada, pois tem riffs fortes que poderiam acomodar a voz de Hetfield com melhor proveito. Efetivamente, "My Apocalypse" segue o estilo de faixas como "Battery", "Damage Inc." e "Dyers Eve", mas particularmente entendo que a última música de "Death Magnetic" tem vantagem.

As faixas de destaque são, nessa ordem, "All Nightmare Long", "Broken, Beat & Scarred", "My Apocalypse" e "Suicide & Redemption", "That Was Just Your Life", "The End of the Line" e "The Day That Never Comes". O melhor, no entanto, é ouvir um monte de riffs bons, distribuídos sem economia nas faixas, muitos dos quais com palhetadas incríveis na 6.ª corda, o que em regra é muito bom.

Os solos de Kirk nesse disco, em geral, não são memoráveis - o cara repete os mesmos licks rápidos, sem se preocupar em criar melodias legais, como em outros discos - mas dois solos merecem destaque: a parte final em "The Day That Never Comes", em que há uma descida (acho que cromática) matadora na 2.ª corda, e que pouco depois descobri que se trata da reprodução de um lick de saxofone de Wayne Shorter no disco clássico "Bitches Brew" de Miles Davis; o outro solo muito legal é o último de "Suicide & Redemption", sobre um riff de guitarra dos melhores da música, e Kirk utiliza com muita eficiência o wah-wah.

Utilizou-se a afinação padrão nas guitarras; apesar disso, a voz de Hetfield não se ressentiu tanto quanto nos álbuns anteriores (após o "Black Album"), nos quais parecia um fiapo (isso fica muito claro nos registros dos shows). Quanto a Trujillo, acho mais importante que o cara se integrou definitivamente à banda, contribuindo eventualmente com alguns riffs. Não sou dos que ficam ofendidos por não ouvir o baixo nos discos do Metallica.

Depois de um bom disco, aguardo os lançamentos do CD e DVD ao vivo com registros da turnê.

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