Antes de “Images and Words”, o Dream Theater lançou um disco (o seu primeiro) com Charlie Dominici como vocalista. A primeira vez que ouvi alguma coisa de “WDADU” foi no disco ao vivo “Live at the Marquee”, no qual constam as excelentes “A Fortune in Lies” e “Another Hand/The Killing Hand”. Posteriormente tomei contato com a instrumental “Ytsejam”. “WDADU”, propriamente, só fui ouvir lá por 1999/2000 quando o Bruce adquiriu-o, possivelmente no Ebay. É inegável que, apesar de estranharmos o vocal de Dominici (digamos que ele não é tão bom quanto LaBrie), bem como os timbres datados de Kevin Moore, as composições desse primeiro disco da banda são muito boas, e desde logo a impressão foi sempre positiva. Acabei adquirindo o disco na Boca do Disco, numa das poucas vezes que sai ganhando do dono da loja (havia perguntado o preço de vários CDs do balcão/balaio que não tinham etiqueta, e sempre a resposta era R$ 15,00; quando vi “WDADU” levantei e não dei margem para controvérsia: “esse aqui é 15 pila também, certo?”; na hora de pagar é que ele percebeu que o disco era importado e que poderia ter tirado mais uns 5 ou 10 reais, mas aí entendo que é o risco do negócio – e provavelmente não teria levado para casa o CD).
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quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Discografia Dream Theater - Parte XIV e final: "When Dream and Day Unite" (1989)
Antes de “Images and Words”, o Dream Theater lançou um disco (o seu primeiro) com Charlie Dominici como vocalista. A primeira vez que ouvi alguma coisa de “WDADU” foi no disco ao vivo “Live at the Marquee”, no qual constam as excelentes “A Fortune in Lies” e “Another Hand/The Killing Hand”. Posteriormente tomei contato com a instrumental “Ytsejam”. “WDADU”, propriamente, só fui ouvir lá por 1999/2000 quando o Bruce adquiriu-o, possivelmente no Ebay. É inegável que, apesar de estranharmos o vocal de Dominici (digamos que ele não é tão bom quanto LaBrie), bem como os timbres datados de Kevin Moore, as composições desse primeiro disco da banda são muito boas, e desde logo a impressão foi sempre positiva. Acabei adquirindo o disco na Boca do Disco, numa das poucas vezes que sai ganhando do dono da loja (havia perguntado o preço de vários CDs do balcão/balaio que não tinham etiqueta, e sempre a resposta era R$ 15,00; quando vi “WDADU” levantei e não dei margem para controvérsia: “esse aqui é 15 pila também, certo?”; na hora de pagar é que ele percebeu que o disco era importado e que poderia ter tirado mais uns 5 ou 10 reais, mas aí entendo que é o risco do negócio – e provavelmente não teria levado para casa o CD).
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Discografia Dream Theater - Parte XIII "Black Clouds & Silver Linings" (2009)
Como de costume, Mike Portnoy tentou definir o som do que viria a ser o novo disco do Dream Theater como um misto de “A Change of Seasons”, “Learning to Live”, “The Glass Prison”, etc. Evidentemente que não levei isso a sério e mantive as expectativas bem baixas em relação a “Black Clouds & Silver Linings”, sobretudo quando ouvi os mp3 disponibilizados oficialmente (meses) antes do lançamento do álbum; numa primeira e perfunctória audição, “A Rite of Passage” e “A Nightmare to Remember” em nada diferiam dos exercícios comuns do Dream Theater sobre estruturas musicais tornadas tradicionais pelos caras nos discos mais recentes. Eventualmente baixei o restante dos mp3 – já não fico mais guardando a audição para a aquisição do CD – e acabei ficando com uma impressão melhor sobre as novas músicas. Acompanhei diariamente o site das duas principais mega-stores de livros, DVDs e CDs, e no dia marcado para o lançamento nacional comprei na loja que vendia mais barato (Cultura).De fato: “Black Clouds & Silver Linings” tem audição bem mais fácil do que os outros discos mais recentes da banda. São apenas 6 músicas, e apesar de longas na sua maioria, são de assimilação tranquila., facilitado pelas estruturas previsíveis das composições. Li uma entrevista de John Petrucci na Guitar World de outubro de 2009 que achei reveladora em muitos sentidos: o cara admite que uma das metas da banda é conciliar partes instrumentais bastante técnicas com refrões cativantes e riffs de guitarra acessíveis. Um grande exemplo disso é a primeira faixa, “A Night to Remember”. A letra é do próprio Petrucci e cuida de suas memórias sobre um acidente automobilístico passado na sua infância. A introdução é do tipo de trilha de filme de terror (Portnoy e Petrucci acreditam que poderia ser trilha de um filme do Tim Burton), incluindo timbre de teclado “fantasmagórico”. Segue-se, após essa sequência de acordes inicial, um riff bem básico de guitarra heavy metal, o qual efetivamente inaugura a música e acompanha os versos. Há um chorus bem definido. Mas a faixa fica boa, mesmo, quando dá uma acalmada a partir dos 7min, e aparecem versos com melodias muito legais (todas as partes com “magnificent desolation” são ouro). No youtube descobri um vídeo sensacional de uma banda japonesa fazendo um cover dessa faixa na íntegra, com resultado excelente.
O single eleito para divulgar esse disco foi “A Rite of Passage”, que no meu sentir é uma música com muito pouca inspiração. O refrão é outra tentativa de produzir um momento acessível e radiofônico (não há problemas quanto a isso), mas o resultado é fraco, sobretudo o backing vocal de Petrucci e a própria linha do vocal principal, com tom bem baixo. O momento no qual Petrucci e Rudess se revezam nos solos é previsível e em nada difere do que já ouvimos melhor anteriormente (a não ser um timbre meio vintage utilizado por Rudess em uma de suas intervenções).
Gostei bastante da faixa mais curta de “BC&SL”: “Wither”, com letra de Petrucci sobre a tarefa inquietante que qualquer compositor/escritor/artista é obrigado a desempenhar no início do seu trabalho: partir do zero, preencher uma folha/tela em branco, etc. Os vocais de LaBrie não demoram para aparecer, e a interpretação do cara é matadora (ele sempre se deu bem nesses momentos mais introspectivos, de encontrar o tom certo para interpretar – não apenas cantar – versos sobre bases mais lentas ou melódicas, ou com acompanhamento minimalista). Efetivamente, é uma das melhores baladas do Dream Theater, na linha talvez de “I Walk Beside You” e de “The Answer Lies Within”, só que muito-muito melhor. É um feliz momento em que tudo se encaixou, tanto a parte instrumental quanto a vocal.
A suíte de Portnoy sobre os 12 passos encerra com “The Shattered Fortress”. Se nas partes anteriores alguns riffs apareciam reciclados, “The Shattered Fortress”, por vezes, parece um grande medley de riffs, pois há reminiscências de todas as músicas que compreendem a suíte. Talvez funcione melhor quando ouvirmos toda a suíte na íntegra, mas por si só é uma faixa fraca, conquanto tenha seus bons momentos.
“The Best of Times” tem letra tocante de Portnoy, lembra bastante o Rush, e acaba sendo muito boa para o meu gosto. Na referida entrevista do Petrucci à GW, o guitarrista revela a dificuldade de compor em tom maior sem imprimir um aspecto alegre demais à composição, e sem ficar igual ao Queen ou ao Rush. Esse é o tipo de ponto de vista que jamais teria por conta própria, de maneira que me parece relevante ler todo o tipo de entrevista dos integrantes da banda a respeito dos seus discos, a fim de conhecer esses depoimentos que, por vezes, viabilizam a adoção de um enfoque diferente quando da audição da música. Afinal, e isso fica bem claro, existem os 5% de inspiração e os 95% de transpiração, e no caso do Dream Theater, geralmente há uma razão para que determinada música seja assim ou assado (as coisas não se passam arbitrariamente ou sem reflexão prévia, como aliás ocorre com toda banda de rock progressivo – sempre lembro do depoimento de Bill Bruford, segundo o qual um dos motivos de sua insatisfação com o Yes eram as homéricas e acaloradas discussões sobre se determinada nota a ser tocada deveria ser um F ou um F#).
O disco encerra com “The Count of Tuscanny”, que é outra de Petrucci com suas experiências pessoais (o guitarrista narra a ocasião em que encontrou um conde dessa cidade).
O lançamento de “BC&SL” não contou com tanta antecipação e com tantas entrevistas explanatórias em comparação com o disco anterior “Systematic Chaos”, mas alcançou a maior colocação no Top 200 da Billboard (#10). Além disso, está consolidada uma nova geração de fãs do Dream Theater, que se somam aos já tradicionais como eu.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Discografia Dream Theater - Parte XII "Systematic Chaos" (2007)
A mudança de gravadora – para a Roadrunner – parece ter dado novo vigor à trajetória do Dream Theater. Afinal, o lançamento de “Systematic Chaos” foi acompanhado de ampla cobertura com (muitas) entrevistas (geralmente de Mike Portnoy e de John Petrucci) e resenhas favoráveis, produção de videoclipe (depois de anos sem utilização desse recurso), e edição especial com extras (um DVD). Além disso, foi disponibilizado um videoclipe muito legal para “The Dark Eternal Night” no youtube (disparado a melhor música do disco, e a melhor desde “The Glass Prison”) com imagens das gravações. Toda essa campanha acarretou a melhor posição até então de um disco do Dream Theater no Top 200 da Billboard (#19), e consequentemente vendas expressivas e novos fãs. O tratamento dispensado à banda pela nova gravadora foi bastante comemorado e explorado por Portnoy nas suas entrevistas, nas quais foram descortinados os bastidores da trajetória da banda nos anos anteriores, muitos dos quais referi nas resenhas dos discos anteriores (basicamente, a antiga gravadora se limitava a por no mercado os discos da banda, sem maiores preocupações com promoção e divulgação; assim, só os fãs já cativos adquiriam os CDs e a banda não atraia novos fãs). Particularmente, achei muito bem vinda essa vigorosa exposição do Dream Theater, ficando clara, para mim, a posição destacada da banda em relação a todas as demais que se propõe a fazer metal progressivo, sendo certo que a cena atual é mais favorável a bandas que se dedicam a compor músicas mais complexas em termos de guitarras e solos (superando, assim, e com vantagem, a fase do nu-metal que dominou o início da década).Já faz alguns anos que não prendo a respiração por um lançamento do DT, seguindo a filosofia de manter baixas as expectativas para evitar decepções. Então acompanhei as notícias sobre o início, o andamento e o término das gravações do disco, as tradicionais descrições de Portnoy (“é uma mistura de ‘Octavarium’ com ‘Train of Thought’, passando por ‘Surrounded’” ou algo do tipo), assisti ao vídeo de “The Dark Eternal Night” e comprei o disco na Cultura quando lançado. Naturalmente, o disco está longe de ser um clássico, mas a audição é um pouco mais pacífica do que a dos registros anteriores, contendo um punhado de bons momentos e de músicas legais.
O disco abre com a primeira parte de uma faixa de 25min dividida ao meio. A justificativa é que a banda (Portnoy) queria que abertura fosse com “In the Presence of the Enemies”, mas uma música tão comprida logo de cara poderia tornar as coisas enfadonhas, então se optou pela cisão em duas partes: uma para abrir e a outra para fechar o álbum. Assim compreendida – como uma música de 25min – fica mais fácil assimilar o fato de que os vocais só entram depois de mais de 5min de partes instrumentais. Seja como for, achei um pouco Rush demais essa abertura. Entretanto, a música é boa, sobretudo nas partes cantadas (James LaBrie mandando bem em ambiente de estúdio).
Petrucci resolveu compor letras ficcionais desta feita, e o tema segue em “Forsaken”, o “single” do álbum (videoclipe e tudo mais). Esta e a seguinte, “Constant Motion” (letra sobre si mesmo, como de costume, de Portnoy), me parecem exercícios genéricos com riffs pesados e refrões radiofônicos, sem maior impacto positivo, como tem sido regra a partir de “Train of Thought”.
As coisas melhoram significativamente em “The Dark Eternal Night”. Nada como um bom riff de heavy metal do estilo Dream Theater (e não do estilo de outras bandas), desta vez com várias notas e pausas cortantes. O refrão radiofônico, desta vez, é certeiro, e o dueto de LaBrie e Portnoy nos vocais funciona bem. Algumas partes instrumentais podem soar um pouco demasiadas, mas com boa vontade isso não compromete a melhor composição da banda em muitos anos.
A suíte de Portnoy dedicada ao tema do alcoolismo (que aparece em uma faixa a cada disco desde “6DOIT” e ao final formará uma grande faixa de aproximadamente 60min) segue em “Repentance”. Diferentemente das anteriores, trata-se de uma música calma, com predominância de timbres limpos (esse clima foi cuidadosamente calculado por Portnoy, pois quando a música for executada na íntegra – 60min – é indispensável um momento mais tranquilo, sob pena da audição (pelo público) e da execução (pela banda) se tornarem cansativas, para dizer o mínimo. Essa suíte (“Twelve-step Suite”) se caracteriza pela reciclagem de riffs empregados anteriormente, e sempre fico com a impressão de que são os riffs mais fracos que são utilizados nessas condições. Assim, uma variação de um riff fraco de “This Dying Soul” conduz a maior parte do tempo de “Repentance”, e esse riff fraco aparece ao final durante a parte em que vários músicos de bandas conhecidas (Jon Anderson, Joe Satriani, Steve Vai, David Ellefson, entre outros), sob convite prévio, prestaram depoimentos sobre o tema da música (arrependimento, desculpa, etc). O momento ouro, no entanto, fica por conta de um raro (hoje em dia) solo-com-feeling de John Petrucci: o cara economiza nas notas, mas manda ver nos bends espirituosos, sem mencionar o timbrão.
A audição de “Prophets of War”, com letra de LaBrie, provavelmente seria divertida não fosse a “influência” muito evidente de Muse. Portnoy costuma divulgar os seus discos preferidos, as suas influências e propagar o quão antenado ele é com bandas novas, mas tenho reparado que isso, no decorrer dos anos, teve o malefício de fazer do Dream Theater um repositório de referências e citações. Evidentemente que não há nenhum mal em compor algo similar ao som de alguma banda (todos fazem isso, de Angus & Malcolm Young a Keith Richards, e de James Hetfield até eu mesmo), mas no caso do Dream Theater acho ruim quando esse método é utilizado com preocupante regularidade (o Bruce já havia apontado acertadamente que “Never Enough”, de “Octavarium”, é quase um cover de “Stokholm Syndrome” do Muse, o que naturalmente deprecia uma faixa que poderia ser considerada muito legal). Independente disso, o timbre de teclado de Rudess é legal (tipo arpegiador, se não estou incorreto), bem como o vocal de LaBrie (os versos do refrão são facilmente assimiláveis, e a letra inteira o cara canta com convicção elogiável).
Nas resenhas passadas já sugeri algumas para o título de pior música do Dream Theater; uma das candidatas aparece em “Systematic Chaos": “The Ministry of Lost Souls”. Trata-se de uma faixa de 15min que já começa mal: uma melodia de Jordan Rudess, com timbre datado e fraco, executado a meia velocidade, como se fosse alguma espécie de épico. Ouvi essa faixa algumas vezes com o pensamento de que “com 15min de duração é impossível que não tenha partes boas que se salvem”, mas a conclusão foi sempre a mesma: é possível, “sad but true”, como diria o outro.
O disco termina com a segunda parte de “In the Presence of the Enemies”, que tanto quanto a primeira, tem momentos que funcionam muito bem.
Considero “Systematic Chaos” um disco bastante razoável (de bom) e tenho curtido mais a cada nova audição, desde que se dê atenção às músicas devidas. Apesar de já estarem consolidados os solos fritados de Petrucci e alguns timbres fracos de Rudess, e de marcar o início do ostracismo de John Myung (o cara não compõe mais letras e são cada vez mais raros os momentos em que o baixo se destaca), a mudança de gravadora parece ter facilitado o acesso ao som da banda para uma outra fatia de novos consumidores, além de ter proporcionado novos itens interessantes para os tradicionais seguidores.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Discografia Dream Theater - Parte XI: "Score" (2006)
Dream Theater já lançou discos triplos ao vivo como registros das turnês de “Metropolis Pt. 2: Scenes From a Memory” e “Train of Though”, respectivamente “Live Scenes From New York” e “Live at Budokan”. No primeiro caso, não houve lançamento oficial no Brasil, e adquirir um importado triplo é inviável; no segundo caso, até houve disponibilização nas lojas daqui, mas o preço ainda assim ficou proibitivo para o material oferecido (ainda não desisti de encontrá-lo em alguma promoção ou balaio, novo ou usado). Achei que as coisas não seriam diferentes no caso de “Score”, que é o triplo ao vivo que registrou a turnê de “Octavarium”, mas ano passado encontrei o disco no balaio da Multisom e também com preço muito baixo na Cultura (menor que um CD simples), e foi só nessas condições que consegui adquiri-lo.“Score” tem a distinção de ser um disco ao vivo no qual a banda se apresentou acompanhada de uma orquestra para boa parte do set list, celebrando seus 20 anos de atividade, tratando-se de um show no Radio City Music Hall. O CD1 contém faixas de cada um dos discos da banda, com ênfase nas que não apareceram nos álbuns ao vivo anteriores, além de inéditas como uma da época em que a banda se chamava Majesty (“Another Won”); então temos uma do primeiro disco “When Dream and Day Unite” (“Afterlife”), uma sobra de “Falling Into Infinity” (“Raise the Knife”); aparecem, ainda, execuções fiéis ao original de “The Root Of All Evil” e de “I Walk Beside You”, do disco mais recente à época, de “Innocence Faded” (de “Awake”), de “Under A Glass Moon” (de “Images and Words”) e “The Spirit Carries On” (de “Scenes From a Memory”). O CD2, já com a orquestra, é difícil de ouvir, pois compreende “Six Degrees of Inner Turbulence” (40min!), “Sacrificed Sons” (10min, fraca do “Octavarium”), “The Answer Lies Within” (5min, idem), e a melhor, “Vacant” (3min, de “Train of Thought”). O CD3 têm apenas duas faixas: “Octavarium” (27min) e “Metropolis Pt. 1” (10min).
Com um set list tão pouco favorável, trata-se de um triplo ao vivo que vai rodar poucas vezes no CD player.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Discografia Dream Theater - Parte X "Octavarium" (2005)
Bem ou mal, considero sempre positivo quando uma banda se propõe a lançar discos de músicas inéditas com regularidade, afinal são poucas que se dedicam a tal arte nesses anos 2000. Além disso, se o lançamento de um CD a cada par de anos pode fazer com que eventualmente um ou outro não tenha a mesma qualidade dos melhores discos de determinada banda - e seja tido como ruim -, entendo que mesmo um disco ruim, nessas circunstâncias, pode ser bem recebido por parte do público e se tornar um clássico do tipo “underrated”, e em escala isso já terá valido o esforço dos músicos. Quero dizer com isso que, como de costume, acompanhei as notícias prévias ao lançamento de “Octavarium”, sem grande ansiedade e sem baixar mp3 na rede (na verdade fui um dos que baixou o disco solo de James LaBrie como se fosse o novo do DT; tão logo percebi o engodo, desencanei de ir atrás da coisa verdadeira), mas não me furtei de adquiri-lo (provavelmente na Cultura, mas talvez na Saraiva) tão logo vi na loja, com esperanças de ouvir boas músicas já que era certo que não se trataria de um “Train of Thought II”, e sabendo que haveria de alguma maneira um retorno ao lado prog da banda. Em 2005 já estava plenamente empregado, porém sem atividades musicais regulares. Dominava a discografia do Dream Theater, e pelas experiências frustrantes dos lançamentos anteriores, trouxe o novo álbum para casa para cumprir um costume.Admito que desde a primeira audição de “Octavarium” tive sensação de decepção. Na internet é muito comum encontrar uma lista com as inúmeras ligações entre os números 8 e 5 constantes desde a arte da capa até o número de faixas. Além disso, “Octavarium” começa como terminou “Train of Thought” (da mesma forma que “Six Degrees of Inner Turbulence” começa com o mesmo “white noise” que encerra “Scenes From a Memory”), tem oito faixas (os discos anteriores tinham 7 e 6), todas em tons diferentes (uma a uma são utilizadas os tons de F, G, A... F), dentre outras sofisticadas coincidências ou intrincadas referências e ligações. Aparentemente, o tema do disco é “as coisas começam onde terminam”, e houve quem temeu pelo encerramento das atividades da banda (alguém interpretou que “Octavarium” encerraria o ciclo do Dream Theater). Acabei achando enfadonha tanta ênfase nesses fatos não-musicais, e achei uma pena que tanto esforço não tenha sido feito na composição das músicas.
A ideia de Mike Portnoy de dedicar uma faixa de cada disco para a famigerada suíte dos 12 passos – e ao final ter-se uma grande música de 60min – é muito boa. E começou de forma excelente, com “The Glass Prison” do “6DOIT”. A sequência, “This Dying Soul”, manteve o peso mas não a qualidade (alguns riffs são fracos). A terceira parte é a que abre “Octavarium”: “The Root of All Evil” retoma um riff de “This Dying Soul” e parte para um outro muito fraco, que domina a música. O refrão recicla de maneira irregular outra parte de “This Dying Soul”, e particularmente achei o resultado final de qualidade bastante inferior.
Desde “Falling Into Infinity” que não havia tantas músicas melódicas/melosas num mesmo CD: “Octavarium” traz duas, sendo a primeira “The Answer Lies Within”. É uma música curta (pouco mais de 5min) e estrutura tradicional, do tipo cuidadosamente composta e produzida, exibindo o lado mais comercial da banda (Portnoy entende que por se tratar o Dream Theater uma banda de rock progressivo, é dado aos caras compor todo o tipo de som, inclusive, se for o caso, algo do estilo mais comercial). O mesmo se pode dizer de “I Walk Beside You”, com o agravante de que esta última se assemelha em demasia ao material de bandas como U2 e Coldplay. Não há dúvidas de que ambas as músicas não são ruins: pelo contrário, são composições bacanas, com boa interpretação (principalmente do vocal de James LaBrie), mas entendo que a banda peca pelas referências óbvias demais.
Diz-se que uma das faixas (“Wither”) do álbum mais recente, lançado em 2009, “Black Clouds & Silver Linings”, tem letra de John Petrucci a respeito do seu temor em relação ao “writer´s block” (mais exatamente, em entrevista à Guitar World de outubro de 2009, o guitarrista revela que a letra é apenas sobre a sensação de escrever – uma música, um livro, um poema – do zero, com a página em branco, e a necessidade de preenchê-la, digamos assim). Pois acho que o cara já escreveu algo do tipo em “Octavarium”... Desde a primeira vez que li a letra de “These Walls” interpretei como se o guitarrista estivesse desabafando sobre a falta de criatividade/inspiração para compor coisas novas, e de forma jocosa (e marota, admito) pensei que a ironia se aplicava ao caso do próprio Dream Theater. Em todo o caso, basta acompanhar: “This is so hard for me/To find the words to say/My thoughts are standing still/Captive inside of me/All emotions start to hide/And nothing´s getting through/Watch me fading/I´m losing all my instincts/Falling into darkness/Tear down these walls for me/Stop me from going under/You are the only one who knows I´m holding back (…)”. Parece a descrição de alguém que se angustia com a súbita incapacidade para criar algo interessante e de relevo. A parte musical tem altos e baixos: começa com sons de alavancadas muito legais de guitarra barítono com afinação pesadíssima. A estrutura, volto a dizer, é tradicional com verso/ponte/refrão, e a certa altura isso torna monótona a audição de um disco da banda nesses termos. Se a letra descreve um compositor angustiado e limitado pela falta de inspiração, a música reflete essa inquietação por seguir uma fórmula consagrada de música de rock.
Duas faixas agressivas e dois épicos vêm adiante. “Panic Attack” e “Never Enough” são do primeiro tipo, e “Sacrificed Sons” e “Octavarium” do segundo.
Os momentos de destaque do baixo de John Myung vem escasseando a cada disco, mas o cara teve oportunidade para executar o riff de abertura de “Panic Attack”. É uma música decente, bem pesada, com algumas partes “ultra metal” (aparentemente do tipo Meshugah, mas me falta o conhecimento para identificar). Geralmente tenho restrições ao tipo de base para os versos com guitarras bem pesadas e cheias de pausas; parece muito Evanescence para o meu gosto.
Achei “Never Enough” muito legal nas primeiras vezes que ouvi. Mas o Bruce/Valmor revelou que se tratava de um cover disfarçado de “Stockholm Syndrome” do Muse. E de fato: tenho o CD do Muse e a semelhança é assustadora, o que deprecia irremediavelmente a audição da faixa. Para liquidar, a letra de Portnoy é uma reclamação grotesca contra os fãs antigos da banda segundo os quais o material apresentado pelo DT nos últimos discos “nunca é (bom) o bastante”. Em outras palavras, a letra é sobre os fãs que reclamam da banda e de Portnoy que reclama dos fãs que reclamam. Quando tive ciência do tema da letra, resolvi lê-la e pude perceber a infantilidade da reclamação, pois o baterista atribui diretamente aos fãs os seus problemas particulares (com bebida, com a família, etc). Não me parece correto – nem maduro - atribuir a causa de problemas pessoais a terceiros, sobretudo no caso de um músico que toca numa banda: afinal, os fãs que compram discos financiam o modo de vida dos músicos, e os primeiros não ganham nada com os segundos, ao contrário destes que vivem com o dinheiro obtido em função daqueles. Tenho feito um exercício de ouvir essa música desconsiderando o fato de que se trataria de um cover disfarçado, bem como a letra despicienda.
LaBrie escreveu uma letra sobre os atentados de 11/09 que virou um épico de 15min: “Sacrificed Sons”. O início arrastado com o piano de Rudess compromete a música que tem bons versos cantados, um refrão previsível, e partes instrumentais idem (nada do que nós já não tenhamos ouvido melhor em outras da banda).
O álbum encerra com uma faixa de 24min, que dá nome ao CD. Aqui se encontram diversas referências a bandas de rock progressivo. A ninguém escapou que o início com teclado climático e solo de guitarra de colo lembra em tudo o início de “Shine On You Crazy Diamond” do Pink Floyd. Lá pelas tantas há um andamento com baixo e bateria que remete a Chris Squire e Alan White do Yes, bem como um riff de teclado com timbre de Moog, no estilo Rick Wakeman. Alguns versos de Portnoy, inclusive, fazem referência expressa a nomes de bandas, artistas de música e de cinema, títulos de músicas e de discos, etc. Lamento não conseguir ouvi-la sem pensar na coletânea de referências e citações, óbvias ou sutis, e também sem comparar com outras fases do Dream Theater nas quais as coisas pareciam mais criativas e originais.
Lendo comentários em vídeos do youtube ou de resenhas de CDs do Dream Theater, reparei que “Octavarium” é citado com frequência como o disco favorito de muitas pessoas – provavelmente neófitos. Independentemente disso, valorizo a disposição do Dream Theater de lançar com regularidade discos com músicas inéditas, sendo certa que essa experiência tem acarretado, no mínimo, a captura de novos fãs e a manutenção de grande parte dos fãs antigos, de modo que após 20 anos de atividades, a banda experimenta novo fôlego para continuar fazendo o que tem feito desde 1985.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Discografia Dream Theater - Parte IX "Train of Thought" (2004)
Até 2003, o Dream Theater espalhava, moderadamente, riffs monumentais de guitarra de estilo heavy metal nos seus discos. Esse punhado de riffs era tão bom, que sempre deixava o tal do gosto-de-quero-mais (v.g.: “Pull Me Under”, “The Mirror”, “Just Let Me Breathe”, além de “Acid Rain” no caso do Liquid Tension Experiment), e a cada disco pensava o quanto seria legal se eles soltassem de vez esses riffs pesados e incrementasse o número de faixas mais agressivas. O passo para esse estágio parece ter sido dado com “The Glass Prison”, e o resultado alcançado pelo Dream Theater com a melhor faixa de “Six Degrees of Inner Turbulence” foi tão bom – durante a turnê respectiva a banda participou de festivais de bandas de heavy metal nos quais desfrutou de boa receptividade (e quiçá ganhou novos fãs) com um repertório de músicas mais agressivas, somado ao fato da banda ter executado na íntegra dois clássicos do gênero: “Master of Puppets” do Metallica e “The Number of the Beast” do Iron Maiden – que a banda resolveu gravar um disco inteiro de som pesado. Evidentemente que no papel a ideia parecia boa (seria tudo o que queríamos ouvir), mas por ironia “Train of Thought” não foi o tipo de disco que esperava dos caras, mais ou menos como se eles tivessem “errado a mão” no peso. A justificativa para o lançamento de um disco nessas condições – é muito mais prog do que metal e lembra pouco o passado da banda – foi justamente a excitação com os shows ao lado de bandas de heavy metal e com a execução integral de discos conhecidos, inspirando a banda para compor um álbum orientado para as músicas com formato mais tradicional, em detrimento de faixas mais complexas e criativas de “Images and Words” (“Learning to Live”), “Awake” (“Voices”, “Scarred”) e “Falling Into Infinity” (“Lines in the Sand”, “Trial of Tears”). Evidentemente que nem todos pensam assim, e provavelmente muitas pessoas gostam de “Train of Thought”. Mas o que me faz realmente gostar muito pouco desse disco é o fato de que aqui os caras parecem ter abandonado definitivamente a ideia de compor músicas sem precedentes: de fato, não demora muito durante a audição para perceber a predominância de riffs simples e repetitivos - assim entendidos aqueles em relação aos quais se pode dizer que não precisa ser um John Petrucci para compô-los -, bem como estruturas comuns e conhecidas de verso/ponte/refrão. Os exemplos abundam: “As I Am” (riff curto e redundante nas mesmas posições de “Enter Sandman” do Metallica), “This Dying Soul” (riff principal que me lembra “Soul of a Vagabond” do Stratovarius), “Endless Sacrifice” (dedilhado e estrutura tradicionais, desde “Children of the Damned” do Iron Maiden até “Give In To Me” do Michael Jackson, passando por “Handful of Rain” do Savatage), “This Dying Soul” (a ninguém escapou que há uma parte na qual tanto o vocal como as guitarras e bateria lembram “Blackened” do Metallica), “Stream of Consciousness” (tentativa de fazer uma faixa instrumental ao estilo “Orion” do Metallica). É muito fácil encontrar referências óbvias de bandas e músicas nessas faixas (o Dream Theater parece não ter se esforçado mesmo em escondê-las), tanto que a tarefa de relacioná-las acaba se tornando enfadonha.
Nessas condições, as partes legais do disco acabam se resumindo a algumas passagens como (a) uma levada diferente de bateria durante um verso em “As I Am” (às vezes Portnoy dá uma quebrada a certa altura, dando a impressão de que a música “tropeça”, ou que algo deu errado – o mesmo recurso é utilizado, de certa maneira, em “Lines in the Sand”, do “Falling Into Infinity”); (b) o riff nu-metal reprisado de “The Glass Prison” em “This Dying Soul”, e o riff que vem logo depois, com várias notas; (c) “Vacant” (uma vinheta curta com letra de LaBrie); (d) os riffs pesados, levadas de bateria e partes de teclado (raro momento de destaque de Rudess) de “Honor Thy Father”
Embora isso não signifique necessariamente boa coisa, John Petrucci se sobressai o tempo todo (afinal, é um disco de heavy metal...) e o cara resolveu de uma vez por todas soltar todos os solos fritados que bem quis (e isso necessariamente não é boa coisa). O papel de Jordan Rudess, por sua vez, ficou menor que secundário – na maior parte do tempo quase não se ouve o teclado – o que é bem frustrante. O único que se dá bem é Mike Portnoy, pois a única referência que ficou legal foi a menção à introdução de bateria de Mikkey Dee em “Welcome Home” do King Diamond na introdução de “Honor Thy Father”.
Como um disco de heavy metal é bom, mas como um disco do Dream Theater é falho, pois é o único disco da banda que contém músicas nas quais podemos antecipar todo o andamento e sucessão de partes logos nos primeiros 30 segundos de audição, independentemente do tamanho das faixas (“depois desse riff, vêm os versos, a ponte...”). Na época do lançamento de “Train of Thought” já estava no meu primeiro emprego e não tinha ouvido previamente o disco antes de adquiri-lo, provavelmente na Saraiva. Tentei fazer uma resenha compreensiva, mas não tive tempo nem para escrever, nem para ouvir mais vezes o disco para me desincumbir dessa tarefa. De qualquer maneira, escrevi alguma coisa, conforme segue:
01.12.2003 - O novo cd do Dream Theater: "Train of Thoughts"
- tenho ouvido desde sábado, portanto, ainda é um pouco cedo para opiniões conclusivas. Entretanto, algumas considerações já podem ser feitas:1) Trata-se, mesmo, de um disco de metal. Do prog metal que fez essa banda famosa há muito pouco. É uma sucessão desavergonhada de riffs de guitarra, acompanhados de bateria vigorosa.
2) O teclado de Ruddess segue a tendência do 6 Degrees (Glass Prison, principalmente), que é de total discrição na mixagem; mesmo nas partes em que deveria "dobrar" a guitarra, esta sobressai. Cada vez mais evidente que não há mais espaço para teclados nessa banda. É fácil imaginar onde e o que os antigos tecladistas da banda fariam para colorir riffs e passagens das músicas, acrescentando melodias e tudo mais - o que sempre foi sua marca registrada, e o que realmente fazia do Dream Theater uma banda de exceção: interação teclado/guitarra, com a bateria altamente técnica, e vocal emotivo.
3) A banda parece ter abandonado as influências Rush e prog anos 70, em favor do peso, estlio Metallica, Slayer, Sepultura, new metal em geral (Slipknot, Korn, SOAD). Por certo que isso serve pra ordinarizar a banda, tornando-a mais uma integrante da cena metal. Em que pese tudo isso, no meu caso particular, já que tenho "formação" metal, conclui que vou ouvir esse Train of Thoughts muito mais do que ouvi o Scenes from a Memory e o 6 Degrees (quem sabe até o Falling into Infinity). Não é exatamente o disco que eu gostaria de ouvir da banda (os referidos também não, mas pelo menos tinham uma "cara" de Dream Theater, facilmente identificável, de uma maneira ou de outra).
Outros comentários ainda serão alinhavados.
19.12.2003 - Dream Theater - Train of Thoughts: pinceladas I (As I Am)
A primeira música (As I Am) já sugere a tônica do disco - riffs retões, repetidos aos pares, de 2 ou 4 compassos, bem no estilo do metal tradicional. E, seguindo essa tendência, não há muito como inovar - as referências surgem facilmente durante a audição.Em se tratando de Dream Theater, isso pra mim é lamentável, pois a banda justamente se diferenciava por criar verdadeiras seções musicais - em retrospecto, vemos que são raras as músicas que giram em torno de um riff em especial, ou que tenha um riff retão (geralmente o riff parecia retão, mas em seguida Petrucci tratava de seguir para outros caminhos, ao invés de repetir até a parte seguinte). Lembro de Pull me Under - no começo tem aquele riff pesadão, que vai se transformando até chegar à parte cantada. Nesse retrospecto, falando de riffs retões, e tirando o primeiro disco, só lembro de Lie, Caught in a Web e Burning My Soul.
Outra característica desse disco, que o distancia dos demais, é a quantidade de solos de Petrucci por metro quadrado. Sempre respeitei muito essa atitude do Petrucci, de solar em poucas músicas (eu realmente não lembro de muitas em que tenha solo de guitar - Another Day, Lie, Voices, Silent Man), sendo que a maioria ou tinha solo de teclado (e Kevin Moore costumava solar bem melhor que o guitarrista - 6:00; além do Derek Sherinian - Burning My Soul), ou resumia-se àqueles duetos fantásticos guitarra/teclado (Metropolis pt. I, Just Let Me Breath, New Millenium). Enfim, o cara resolveu descontar tudo de uma vez, mas acho que se quebrou.
As I Am não tem quase vestígios de teclado. Nessa música, o vocal ficou legal, diferenciando bastante do tom mais contido que o James Labrie vem adotando desde Falling into Infinity, em respeito ao seu alcance limitado nos shows.
Na parte do solo de guitar, a música aparentemente pára - baixo e teclado tocam um riff como base, emendando depois com o riff principal. Não há uma guitarra base. Essa característica é totalmente do Pantera (que só tem um guitar e um baixista), onde na parte dos solos fica um vazio, que batera e baixo não conseguem preencher. Cumpre notar que em A Change of Seasons, no solo de guitar a base também é com baixo/teclado, e não tem vazio nenhum, mesmo nas apresentações ao vivo. O solo, propriamente, é dos mais jacuzzi (depois vêm me dizer que o Malmsteen é que é o cdt...), mas aquela corrida no final salva a pátria.
A parte que eu mais me abri é no segundo verso, onde o Portnoy faz umas quebradas , dando aquela impressão desconfortável (e muito legal) de que o cara tá errando a levada. É sensacional, e o Portnoy sabe fazer bem essa parte.
No final, quando a música já devia ter acabado uns 2 minutos antes, os caras bolaram aqueles feedbacks muito legais, com 2 guitars (uma em cada lado do headphone).
A música é boa, mas não impressiona. Não entra pro top 20 Dream Theater.
Da turnê de “Train of Thought” saiu em 2004 um CD triplo ao vivo e um DVD duplo contendo registros de uma apresentação no lendário Budokan, nomeado “Live at the Budokan”. Algumas versões ficaram muito boas, notadamente “Trial of Tears”, e é legal ver o resgate de “New Millenium”. Portnoy decidiu valorizar as músicas do primeiro CD da banda (“When Dream and Day Unite”), representado por uma com letra de Kevin Moore, “Only a Matter of Time”. Os documentários que acompanham o DVD são muito bons.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Discografia Dream Theater - Parte VIII "Six Degrees of Inner Turbulence" (2002)
Da turnê de “Scenes From a Memory”, o Dream Theater lançou um disco triplo (!) ao vivo contendo uma performance de 4 horas em NYC na qual foi reproduzida a íntegra de “SFAM”, com participação de orquestra e tudo mais, além da execução de “A Man Beside Itself” (que corresponde à trinca “Erotomania”, “Voices” e “The Silent Man” de “Awake”) e de “A Change of Seasons”. Esse álbum, lamentavelmente, não foi lançado no Brasil, e a aquisição de um triplo importado é, ainda hoje, proibitiva. “Live Scenes From New York” também se notabilizou pelo seu lançamento ter coincidido com o dia do atentado ao WTC (ninguém esquece do 11/09/2001), e por conter na capa o prédio em chamas (a arte foi imediatamente alterada para uma outra bem mais singela com o coração que aparece na capa de “Images and Words”).Pouco se divulgou sobre o próximo disco de estúdio do Dream Theater, e foi a primeira vez que achei que um álbum da banda estava sendo lançado de forma surpreendentemente rápida, sendo certo que me parece elogiável a iniciativa de lançar discos com regularidade (poucas bandas se dão esse trabalho, diferentemente dos anos 1970 e, em alguns casos, 1980). Admito que não consegui conter a curiosidade quando apareceram os mp3 do novo disco “Six Degrees of Inner Turbulence” no final de 2001/início de 2002 (estava durante as férias escolares mas sem férias no estágio, o que não necessariamente era ruim). Ouvi um pouco da primeira faixa na casa do Bruce, e depois baixei as músicas do CD1 (e as ouvi um par de vezes), já sabendo que o CD2 seria reservado para a faixa-título, com mais de 40min (comprei o disco logo que vi na loja, provavelmente a Saraiva). E lembro claramente de como fiquei bem impressionado com “The Glass Prison”. Uma introdução de John Myung (com tappings e harmônicos artificiais, bem ao seu estilo), ao qual aderem os demais instrumentos até culminar num riff matador de guitarra de John Petrucci (o wah-wah nos últimos compassos serve para enfatizar ainda mais a cavalice). Depois disso é pauleira na 7.ª corda, totalizando 13min de heavy metal com progressivo. Diz-se que a música foi composta depois de Petrucci e Portnoy terem assistido a um show do Pantera (então em final de atividades). Seguramente é a melhor música da banda desde “A Change of Seasons” (e a melhor desde então), e a receptividade parece ter sido tão boa que a banda resolveu dedicar um disco inteiro a um som desse gênero (embora o resultado – “Train of Thought” – seja de qualidade discutível). “The Glass Prison” tem letra escrita por Mike Portnoy a respeito dos seus problemas com alcoolismo e seria a primeira parte da suíte dedicada ao tema, ao qual seriam dedicadas faixas dos discos subseqüentes – e ao final formariam uma grande música de aproximadamente 40min para mais. A letra é muito boa, e finalmente funcionou o backing vocal de Portnoy – mais exatamente, o cara divide os versos da primeira parte com James LaBrie, em estilo chamada-e-resposta, e o faz de tal forma que a banda jamais repetiu o êxito a partir de então (o mais próximo talvez seja em “The Dark Eternal Night” de “Systematic Chaos”). O refrão é legal e depois a música muda de groove para acompanhar um riff monumental de Petrucci, no qual Rudess reproduz o papel de DJ a fim de dar um ar de new metal (que ainda tinha certa popularidade na época). Esse riff é intercalado com outro com várias notas e muito bom também. Os caras pareciam certeiros em todos os aspectos, mas achei um pouco exagerada a parte instrumental que segue depois até perto do final: muitas repetições de duas ou três partes que parecem vir e voltar arbitrariamente, até desacelerar e voltar para o último verso que encerra abruptamente a faixa. Com o tempo e um pouco de pesquisa, reparei que é um recurso utilizado também por outras bandas de metal progressivo como Lamb of God, Mastodon, entre outras até o Metallica. Apesar de se tratar de uma música excelente, foi a partir dessa faixa que reparei na mudança de duas características da banda: (a) a predominância de solos de guitarra fritados em prejuízo dos solos mais sofisticados, que se caracterizavam por vários bends e efeitos e wah-whas; e (b) o papel secundário exercido por Rudess (durante muito tempo me frustrei com os timbres datados – ou timbres de piano repetitivos e fora de propósito - e a falta de riffs e melodias criativas de teclado como Moore e Sherinian nos havia acostumado em faixas como “Caught in a Web”, “The Mirror”, “Lines in the Sand”, “Just Let Me Breathe”).
Com uma abertura tão boa, “6DOIT” prometia ser o melhor da discografia da banda. Mas as faixas seguintes, apesar de boas, não são tão marcantes. “Blind Faith” é completamente diferente (não tem riffs de heavy metal, apesar da afinação mais baixa da guitarra e dos acordes executados em regiões graves), com um belo refrão (aliás, toda a parte cantada por LaBrie é muito boa), mas, assim como a primeira, essa segunda faixa também tem longas passagens instrumentais. De qualquer maneira, o resultado não é desprezível, e o mesmo se pode dizer de “Misunderstood”, que também tem um bom refrão e boas partes cantadas.
“The Great Debate” é outra música longa com letra de Petrucci (sobre “stem cell research”), com introdução sorrateira (do tipo que “vai num crescendo” e que contém diversas frases tiradas de jornalistas de TV sobre o tema da letra) até culminar com um riff simples em andamento e levada que me lembraram imediatamente ao som do Rush.
A última do CD1 é “Disappear”, bem diferente e bem melancólica – e modernosa, talvez influência de Radiohead, embora não tenha condições de afirmar isso categoricamente (falta-me conhecimento da discografia da banda inglesa). Então o CD1 de “SDOIT” tem músicas variadas, com bons momentos, e uma música excepcional; tirante essa, nada muito marcante.
O CD2 é dedicado na íntegra a uma faixa de mais de 40min, que dá o nome ao álbum, e foi dividida em 7 partes para, segundo Portnoy, facilitar a audição. Entendo que essa medida enfraquece a noção de “uma-música-de-40-min”, mais parecendo 7 músicas de um disco conceitual como “Dark Side of the Moon” do Pink Floyd (mal comparando). É um esforço demasiado tentar descrever essa grande faixa, sobretudo porque os melhores momentos são “Solitary Shell” e “Goodnight Kiss” (que são baladas aptas a serem lançadas como singles, com começo, meio, fim e refrão radiofônico). Diz-se que Jordan Rudess compôs integralmente a “Overture” como se fizesse parte de trilha sonora de filme de cinema; a banda acabou aproveitando-a e ainda adotando alguns temas como partes principais da composição principal que veio a ser a faixa-título. Além disso, há um riff que era bem executado tanto na guitarra, quanto no teclado, e como a banda não soube eleger um, optaram por manejar os dois como partes principais das duas “About to Crash” – a primeira com piano e a reprise com guitarra. Dois momentos de peso correspondem a “War Inside My Head” (com bom backing vocal de Portnoy) e “The Test That Stumped Them All” (após cada refrão é executado um padrão na bateria inicialmente apenas com a caixa, ao qual Portnoy agrega – e dificulta a execução – outros instrumentos da bateria a cada repetição).
Um disco duplo de material inédito poderia resultar em um álbum repetitivo e monótono, ou com altos e baixos. No caso do Dream Theater, os caras se desincumbiram bem dessa tarefa, criando uma música excepcional (“The Glass Prison”) e outras músicas boas, interessantes e/ou diversificadas em comparação com seu repertório até então (“Blind Faith”, “Misunderstood”, “The Great Debate” e “Disappear”, além da própria faixa-título de 40min). Particularmente, achei que a banda estava tomando um rumo muito bom, embora nem fizesse ideia do que a banda poderia fazer de diferente para não repetir as experiências anteriores (álbum duplo, disco conceitual, mais melódico, mais pesado, mais prog, etc). Na turnê subseqüente, os caras expandiram como nunca o tamanho dos shows, empregando a ideia do “an evening with Dream Theater”, sem bandas de abertura, e com shows de quase 3h. Além disso, a banda começou a executar na íntegra discos clássicos de bandas influentes, como “The Number of the Beast” do Iron Maiden, “Master of Puppets” do Metallica, “Made in Japan” do Deep Purple, “Dark Side of the Moon” do Pink Floyd.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Discografia Dream Theater - Parte VII "Metropolis Pt. 2: Scenes From a Memory" (1999)
Passamos 1998 e parte de 1999 ouvindo “Falling Into Infinity”, “Once in a Livetime” e os dois discos de estúdio do Liquid Tension Experiment. Estes últimos continham riffs e partes muito mais legais do que alguns riffs e partes do “Falling Into Infinity” (v.g., “Acid Rain” e seus diversos riffs de guitarra com 7 cordas, “Paradigm Shift”, “Another Dimension”, “When the Water Breaks”), de maneira que nos parecia intuitivo que com Jordan Rudess no lugar de Derek Sherinian essa inspiração toda seria registrada num disco do Dream Theater. Então, quando soubemos que o próximo disco da banda seria (a) um disco conceitual, (b) com Rudess no lugar de Sherinian, (c) e totalmente sigiloso até o seu lançamento (em pleno auge do Napster e do Audiogalaxy, que eram sede para todos os vazamentos pré-lançamento), mal conseguíamos conter a ansiedade (lembro de conversas com o Bruce e com o Jorge Gordo, no caminho para os nossos ensaios naquele verão de 1999 – no tempo em que a Burnin´ Boat ainda não tinha uma formação regular - tentando antecipar como seria o disco). Particularmente, tinha crença de que seria um disco espetacular, com risco de ser o melhor de todos os tempos, e resolvi aguardar para ouvi-lo até a compra do CD (provavelmente na Saraiva, mas não estou mais certo), desprezando os mp3 disponíveis após o lançamento no exterior, e mesmo o CD de quem já havia comprado antes de mim.Agora se sabe que com “Falling Into Infinity” a banda encontrou um período de uma espécie de conflito com gravadora (ou, dito de outra forma, de interesses não coincidentes), e diante do resultado controverso do lançamento de 1997, Portnoy conseguiu obter plena liberdade artística para o novo disco, em relação ao qual já se sabia que seria a parte 2 da faixa “Metropolis Pt. 1” do disco “Images and Words” de 1992. Assim, a banda compôs e gravou o álbum simultaneamente, e o resultado foi um sucesso de público e crítica. O disco foi saudado como um retorno da banda ao prog metal que havia lhe dado sucesso, e são muitos os que têm “Scenes From a Memory” como o favorito da discografia da banda. Particularmente, o que posso dizer é que durante muito tempo convivi com a sensação de que quando começava a ouvir “Scenes From a Memory” ficava com vontade de ouvir “Metropolis Pt. 1”... Admito que já tentei ouvir o disco de diversas formas, mas ainda não consegui curti-lo adequadamente (a situação melhorou em data recente, tanto em relação a esse disco, como em relação aos que vieram depois). Em razão disso, comparando com os demais da discografia da banda, é o álbum que menos ouvi, e também um dos poucos que tenho dificuldade para identificar as músicas sem recorrer ao encarte do CD. Parece-me que não há riffs ou partes marcantes, ficando os melhores momentos para “Strange Deja Vu” e talvez “Home”. Às vezes penso que teria sido melhor uma música de 20 ou 30min com as melhores partes das faixas de “Scenes From a Memory”, mas francamente também não estou certo de que isso daria certo, ou se estou só exagerando (provavelmente esta última).
Só recentemente tive o interesse de entender o “conceito” sob as letras de “SFAM” (o Wikipédia ajudou grandemente), e admito que a história é sofisticada de certa maneira (ou pelo menos, mais sofisticada do que eu pensava inicialmente). Musicalmente, entretanto, foi o primeiro disco da banda em relação ao qual tive a sensação de que os caras não estavam apresentando algo novo o suficiente para levantar as sobrancelhas a ponto de que fosse possível dizer “isso é muito legal”. É provável que esteja sendo injusto, e que assim como já fiz a respeito de tantos outros discos de tantas outras bandas – que após rejeitar inicialmente, acabei curtindo mais além - deveria tentar ouvir “SFAM” mais vezes até gostar.
“Overture 1928” tem boas partes instrumentais, mas a coisa melhora mesmo em “Strange Deja Vu”, que conta com belo refrão (backing vocal de Portnoy se destacando pela primeira vez), além da estrutura tipo “Pull Me Under”, que tem um acompanhamento instrumental diferente para cada punhado de versos cantados por LaBrie. Achei cedo para a banda emendar logo uma balada, mas em todo o caso “Through My Words” dura pouco mais de um minuto e é o tipo de palco para o vocalista se destacar com sua interpretação delicada, acompanhado de piano. Por outro lado, acho fracas algumas faixas como “Through Her Eyes” (versão piorada para “The Great Gig in th Sky” do “Dark Side of the Moon”, com direito a bateria eletrônica), “One Last Time”, “The Spirit Carries On”, “Finally Free” e até “Beyond This Life”.
Parecia-me – na época do lançamento – que a banda acabava ficando limitada pelo “conceito” do disco, i.é, às vezes tendo que adaptar a música ao ritmo da história, em prejuízo da dinâmica da sucessão das faixas. “Home” vale pelo peso de algumas partes (inclusive por antecipar a utilização do wah-wah em um ambiente diferente dos solos de guitarra; no caso, Petrucci se vale do pedal para enfatizar os acordes mais pesados e cheios de pausas do riff principal, precedendo à utilização com a mesma finalidade em “The Glass Prison”, do disco seguinte “Six Degrees of Inner Turbulence”; além disso, há um tema com guitarras harmonizadas que antecipa, ao menos indiretamente, um tema com guitarras harmonizadas em “This Dying Soul”, de “Train of Thought”), e “Fatal Tragedy” se torna interessante a partir da explicação de Mike Portnoy – no seu vídeo instrucional – sobre a parte que encolhe e aumenta (dois riffs são executados alternadamente pela banda como base para os solos de guitarra e teclado com determinado número de repetições – quatro -, e a cada volta uma repetição é excluída até que cada riff seja executado uma vez - três, dois, um -; depois as repetições são acrescidas até a forma original – um, dois, três, quatro; é o tipo de detalhe que jamais teria percebido se não fosse a dica do baterista).
Independentemente do que foi dito, impõe-se admitir que “SFAM” revirogou a banda perante seu público, e é frequentemente adotado como disco favorito dos fãs nesse período, e a partir de então Petrucci e Portnoy passaram a produzir todos os discos subseqüentes sem contar com ajuda externa, como medida extrema, dentre outras, para evitar palpites impertinentes e comentários ruinosos face à experiência adquirida com a era “Falling Into Infinity”.
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Discografia Dream Theater - Parte VI "Once in a Livetime" (1998)
Para quase todos os discos de estúdio do Dream Theater há um correspondente disco ao vivo da respectiva turnê. No caso de “Falling Into Infinity”, a banda lançou um duplo ao vivo e um DVD “Once in a Livetime” em 1998. Comprei o disco logo no lançamento, na Saraiva do Praia de Belas, por um preço tranquilo (acredito que já tinha alugado, poucos dias antes, na MadSound).Assim como o anterior “Live at the Marquee”, acho que o timbre de guitarra distorcida de Petrucci está um pouco magro nessa gravação. No entanto, essa deficiência acaba sendo compensada com um set list abrangente e com diversas surpresas positivas. Apesar de não ser exibida na íntegra, é legal ouvir partes de “A Change of Seasons” e também o modo como os caras juntam trechos de diversas faixas para comporem um medley: o disco abre com as duas primeiras partes da sua faixa de 24min, emendam com “Puppies on Acid” (que nada mais é do que a introdução de “The Mirror” de “Awake”), culminando em “Just Let Me Breathe”. O trocadilho é inevitável: a sequência dá pouco espaço para respirar uma pausa. Ainda no CD 1 constam duas faixas longas de “Awake” (“Voices” e “Scarred”), além de “Take the Time” (com uma interminável jam “Freebird” do Lynyrd Skynyrd ao final, e o riff de “Moby Dick” do Led Zeppelin para concluir). O CD2, por sua vez emenda três do então disco novo (“Trial of Tears”, “Hollow Years” e “Take Away My Pain”), duas do “Awake” (“Caught in a Web” e “Lie” para dar uma acordada após duas baladas), mais uma do “FII” (“Peruvian Skies”), e finaliza com “Pull Me Under” e um medley com “Metropolis Pt. 1”, “Learning to Live” e a última parte de “A Chagne of Seasons” (“The Crimson Sunset”).
Essa ainda era a época em que havia espaço para tocar “Ytse Jam”, e ainda dedicar preciosos minutos para solos de guitarra, bateria e teclado. Se no primeiro e segundo casos, o resultado é previsível, o “Momento Lucky Strike” fica por conta do excepcional solo de piano de Derek Sherinian, que tenho como o melhor solo de um tecladista que já ouvi. Tem pouco menos de 2min e mostra delicadeza e agressividade, simultaneamente. No youtube há vídeos de pessoas tentando reproduzir o solo, mas infelizmente não há o registro do próprio Sherinian.
Esse duplo ao vivo representou, ainda, a tentativa do DT de agregar backing vocals: Petrucci e Portnoy se esforçam nesse sentido, mas o resultado ainda não é totalmente convincente (é um pouco irritante a voz anasalada e alta de Portnoy nos primeiros versos rápidos de “Take the Time”: “I´ve seen the promises, I´ve seen the MISTAAAAAAAAAKES”). De qualquer forma, era algo que eles precisavam incorporar para melhorar as performances ao vivo (e mesmo as gravações em estúdio) e com o tempo conseguiram resultados bem mais favoráveis.
Além disso, na época gostamos bastante dos trechos de covers inseridos subrecepticiamente em algumas músicas: “Have a Cigar” e “Enter Sandman” em “Peruvian Skies”, o tema de Luke Skywalker (ou da Força) no início de “Voices”, “Paradigm Shift” no solo de Petrucci foram os melhores momentos.
Em retrospecto, trata-se de um excelente e oportuno registro da formação com Derek Sherinian, bem como da competência dos caras na formação do repertório, com espaços para medleys e covers, o que serviu para abrir nossas cabeças quanto às possibilidades de uma apresentação ao vivo.
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Discografia Dream Theater - Parte V "Falling Into Infinity" (1997)
Em 1997 já conhecia perfeitamente o Dream Theater, de maneira que aluguei o mais recente lançamento tão logo vi o cd – “Falling Into Infinity” – na MadSound. E a minha primeira impressão, ao ouvir “New Millenium” e as demais faixas, foi a de não saber o que pensar a respeito do disco. De fato, demorei a firmar uma opinião sobre o álbum, sendo que a única convicção era a de que não se tratava de um disco tão bom quanto os anteriores, provavelmente pela maneirada no som pesado e no privilégio concedido a baladas e músicas com muita melodia. Hesitei por alguns dias, mas acabei comprando o CD numa das Multisom do Iguatemi (aquela que ficava perto da extinta Banana Records). Nessas condições, não é dos meus favoritos, mas com o tempo consegui adotar uma posição mais pacífica em relação ao disco, até porque não há como opor que o disco foi cuidadosa e detalhadamente produzido, composto e gravado de forma exemplar.Agora já sabemos o panorama no qual foi concebido “FII”: o projeto era para um álbum duplo (havia muito material composto pela banda), mas a gravadora vetou a ideia, pediu um álbum mais comercial e ainda impôs um produtor conceituado (Kevin Shirley – depois dessa experiência, a banda conseguiu afastar produtores externos nos discos subsequentes). Conforme Mike Portnoy, isso se deveu a uma mudança nas cabeças decisórias da gravadora, e as novas peças não conheciam nem queriam conhecer a banda, acarretando essa intromissão tida como indevida (o célebre Desmond Child foi chamado para colaborar em “You Not Me”, modificando versos do refrão, o nome da música e aparentemente encurtando o solo de guitarra – essas modificações, salvo engano, melhoraram de fato a música), e falta de investimento na promoção dos discos da banda (as vendas ficavam limitadas aos fãs e seguidores habituais, em detrimento da agregação de novos fãs). O baterista sugeriu, até, que nessa época pensou em encerrar as atividades da banda. Assim, diferentemente do que eu (e muitos outros, pelo que se vê nas incontáveis resenhas – e palpites - disponíveis na internet) pensava na época, a mudança no som do DT não tinha nada a ver com a participação de Derek Sherinian (durante um tempo achei que por ser um músico muito ligado ao hard rock farofa, suas contribuições poderiam ter enfraquecido o som da banda, o que absolutamente não tem nada a ver, sobretudo quando se ouve o primeiro disco que o cara lançou logo depois de ser saído do Dream Theater: o extraordinário “Planet X”, com algumas músicas muito mais legais do que muitas das lançadas pelo próprio Dream Theater nos seus discos da era Rudess: como exemplo, basta citar “Apocalypse 1470 B.C.”, com virtuosismo inacreditável). Além disso, durante todo esse tempo achei que a banda contava com apoio incondicional da gravadora, tendo em vista o sem número de discos ao vivo duplos e triplos (!) e de DVDs duplos lançados no período (pensando em retrospecto, talvez isso se justifique mais pelo fato de que os fãs do Dream Theater adquirem tudo o que diz respeito à banda, notadamente os incontáveis bootlegs dos shows, e assim a gravadora poderia faturar em cima da avidez dos fanáticos, não coincidindo propriamente com alguma convicção artística no trabalho da banda). Por outro lado, lembro de entrevistas de John Petrucci para a Guitar World – nessa época já não comprava mais revistas de guitarra importadas, só lia as entrevistas e tablaturas na banca, geralmente a antiga Siciliano do Praia de Belas - , nas quais ele enfatizava que “FII” seria uma espécie de “Dark Side of the Moon” do DT, tal o cuidado com a produção e a composição das faixas. Admitiu, indiretamente, na ocasião, que o prog metal havia sido deixado em segundo plano ao dizer que “para os que querem mais prog estamos compondo uma música de 20min, tipo ‘A Change of Seasons’ para ser a continuação de ‘Metropolis Pt. 1’”. Por fim, no vídeo “5 Years in a Livetime” – registrado durante as gravações de “FII” e a turnê subsequente – há um momento em que Portnoy pergunta a Derek Sherinian o que ele estava fazendo, ao que o tecladista respondeu “fazendo história”. Parecia haver, seja como for, confiança no material, na qualidade das músicas e na direção que estava sendo tomada, independentemente dos bastidores tidos como desfavoráveis.
“Falling Into Infinity” é um disco enorme (quase 80min) com diversas faixas (11) muitas das quais totalmente diversas entre si em relação ao estilo: vários gêneros são representados, desde uma espécie de hard rock (“You Not Me”), até metal (“Just Let Me Breathe”), passando por (excesso de) baladas radiofônicas (“Hollow Years”, “Take Away My Pain” e “Anna Lee”) e músicas mais progressivas (longas e com várias partes, como “New Millenium”, “Lines in the Sand” e “Trial of Tears”). Há coisas para lamentar: (a) excesso de baladas radiofônicas (“Take Away My Pain” e “Anna Lee” são bonitas, mas são mais fracas que “Hollow Years”, e acabam sobrando); e (b) “Hell´s Kitchen” foi composta originariamente como uma parte de “Burning My Soul”, mas acabou se optando pela cisão da música em duas, a fim de viabilizar uma faixa pesada e curta como “single” ou algo do tipo (“Burning My Soul” ficou com pouco mais de 5min, ao invés dos 9min se contasse com a parte “Hell´s Kitchen”) – dessa forma, as duas faixas ficaram enfraquecidas, pois sem “Hell´s Kitchen”, “Burning My Soul” se torna uma música pesada comum – apesar de muito boa - na discografia da banda e “Hell´s Kitchen”, por si só, não tem força para se tornar uma faixa instrumental memorável. No geral, o clima é o de que a banda não conseguiu compor músicas fortes (clássicas) para acompanhar o material desenvolvido com sucesso em “IAW”, “Awake” e “ACOS”. Mas algumas músicas de “FII” são, de fato, excelentes, e pelo menos os timbres de Derek Sherinian (com o Korg Triton e o Korg Trinity) são os melhores que já apareceram na discografia da banda.
Sempre me pareceu estranho inaugurar um disco como “FII” com “New Millenium”. Há uma introdução com teclado (timbre massa de Sherinian) e fico na expectativa de evolução para algo extraordinário, que acaba não vindo, sobretudo quando se considera que quando James LaBrie aparece para cantar os primeiros versos, o faz num registro extremamente baixo (e agora se sabe que isso é decorrência de uma ruptura nas cordas vocais, não tratadas adequadamente, durante a turnê de “Awake”, sendo que essa condição afetou a performance do vocalista pelo menos até o disco “Six Degrees of Inner Turbulence”). A faixa é boa, no entanto, pela parte instrumental, na qual há uns duetos legais entre Sherinian e Petrucci, conduzidos por boas levadas de Portnoy.
Se lembrarmos que “Awake” tinha “Innocence Faded” não deveria causar estranheza que a segunda faixa de “FII” fosse uma do tipo “You Not Me”. É difícil dizer que uma música do Dream Theater é ruim, talvez parecendo mais correto dizer-se que é uma música ruim PARA o padrão Dream Theater (e mesmo isso é difícil de dizer, pois Portnoy costuma enfatizar que a banda, como seguidora do rock progressivo, pode se propor a fazer qualquer tipo de música que ainda assim não parecerá estranho ou despropositado, e nem comprometerá suas “raízes”). De qualquer maneira, “You Not Me” é um hard rock, e entendo que a música só teve a ganhar com o famigerado “input” de Desmond Child.
As coisas melhoram bastante em “Peruvian Skies”: apesar de que já conhecemos bastante o tipo de música que começa com um dedilhado com guitarra limpa e segue para momentos com guitarra distorcida, no caso do Dream Theater, porém, o dedilhado é bem legal, com notas imprevisíveis (ou, dito de outro modo, escolhidas de forma elegante e sofisticada), e com acompanhamento de uma boa levada de Portnoy e uns timbres legais do teclado de Sherinian. Após um dos melhores solos de guitara de Petrucci, a faixa evolui para culminar com um bom riff de heavy metal (esse tipo de riff era apresentado com moderação pela banda, e o resultado era sempre 100% bom), ao estilo “Enter Sandman” do Metallica (não por acaso esse riff é tocado brevemente na versão que apareceu no “Once in A Livetime”) precedido de um solo bem composto e executado por Petrucci.
A impressão ao ouvir “Hollow Years”, tanto quanto em “Another Day” de “Images and Words”, era de que seria uma música fácil de tirar no violão. Olhando, no entanto, para as tablaturas, verifica-se que há diversos acordes incomuns para o rock (algum jazzista ou bossanovista certamente vai achar uma barbada de tocar), então não foi dessa vez que descobri uma do Dream Theater para tocar na íntegra. É inegável que se trata de uma música bela, com melodias bacanas. Deveria ser a única balada do disco.
“Burning My Soul” tem um excelente solo de Sherinian, bem melhor do que muitos dos que posteriormente foram registrados por Ruddess e por Petrucci. Até a base do solo, conduzida por baixo e guitarra, é legal, com várias mudanças de compasso. A música é legal, com um riff pesado e diferente de guitarra (exige um pouco de ginástica da mão esquerda), mas teria ganho muito caso não tivesse sido-lhe retirada a parte que veio a formar “Hell´s Kitchen”, que sozinha parece uma peça inacabada. O final desta praticamente emenda com “Lines in the Sand”.
“Lines in the Sand” tem uma introdução longa de Sherinian (com timbres então inéditos e matadores, sabendo-se como se sabe que o tecladista curte sons que remetem à guitarra distorcida – o Korg Triton ou o Trinity era um dos instrumentos principais do cara na época com essa finalidade). Mas foi só quando ouvi com atenção a parte antes dos vocais, quando Petrucci começa a tocar um riff repetitivo e a bateria de Portnoy toca uma levada diferente na bateria por alguns compassos, até “acertar” a levada “correta” para aquele riff, que abri o ouvido para curtir – com moderação – essa faixa. Esses momentos em que Portnoy muda a levada para um mesmo riff (ou dá uma quebrada inesperada) são sempre legais. Lá pelas tantas a música abre para um solo muito inspirado de Petrucci (o cara ainda não era adepto das fritadas, como agora). O backing vocal de Doug Pinnick no refrão sempre me pareceu meio bizarro e descabido.
Outro momento legal de prog é em “Just Let Me Breathe”, que tem um riff com uns hammer-ons e pull-offs na 7.ª corda solta lá pelas casas 10 e 12. A música é a mais pesada e uma das melhores do disco e conta com mais um momento espetacular de interação entre Sherinian e Petrucci (este revelou na mesma entrevista para a Guitar World já referida que curte esses duetos e prefere aqueles em que toca padrões de três notas por corda).
Os caras encontraram espaço para mais uma balada, dessa vez com ênfase no piano: “Anna Lee”, que começa como uma espécie de “Wait for Sleep” do Sherinian (no quesito “introdução-de-piano”), mas que ganha outras partes e contribuições dos outros instrumentos. É a única letra de James Labrie, assim como a faixa seguinte é a única de John Myung (as demais foram escritas por Petrucci ou por Portnoy – este foi responsável pelas das faixas mais pesadas: “New Millenium”, “Burning My Soul” e “Just Let Me Breathe”).
Só fui ouvir com mais atenção “Trial of Tears” a partir da versão do triplo ao vivo “Live at Budokan”. Aqui não há espaço para heavy metal: não há riffs na 6.ª corda solta. Petrucci mostra a sua versatilidade e toca coisas realmente criativas na guitarra, e o mesmo se pode dizer das levadas de Portnoy, notadamente naquelas com baixo e bateria que precedem os solos (“Deep in Heaven”). É muito bom o refrão (“It´s Raining”) e toda a interpretação de James LaBrie, bem como a parte com acordes de violão (ou guitarra limpa) após o solo de Sherinian (“The Wasteland”). Trata-se de uma composição realmente repleta de melodias bonitas e momentos expressivos.
Particularmente entendo que o mérito de “FII” é demonstrar que o Dream Theater não estava preso a fórmulas, eis que cada disco era diferente do outro e mostrava certa evolução. Entretanto, a evolução preconizada por “FII” – seja por orientação da gravadora, seja pelo tipo de música que os caras estavam se propondo a compor – não guardava sintonia com os melhores momentos dos discos anteriores, de modo que por muitos anos vivi com um certo desapontamento e a convicção de que a época boa da banda foi a época com Kevin Moore (agora já acho que a época boa do Dream Theater vai até o “FII”). Entretanto, é possível escutar “FII” sem lembrar de “IAW” e de “Awake” e considerá-lo – não o melhor mas - um grande disco do Dream Theater.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Discografia Dream Theater - Parte IV "A Change of Season" (1995)
Em 1996 vi para alugar, na extinta CD Express que ficava na Av. Independência esquina com R. Garibaldi, o então recente lançamento do Dream Theater, um EP com uma música de 23min – a faixa-título “A Change of Seasons” – e quatro covers (três medleys) de grandes bandas e artistas de rock, hard rock e de rock progressivo. Lembro que no caminho da locadora para casa fiquei imaginando como seriam esses covers, e como os caras haviam acertado na eleição das bandas homenageadas (Deep Purple, Queen, Led Zeppelin, Pink Floyd, Genesis, apenas para citar as que eu tenho CD em casa). Conhecia bem o Dream Theater, e o resultado desses covers parecia fascinante (nem esperava muito da faixa título, única composição original e inédita do disco). Algum tempo depois, quando foi lançado no Brasil, comprei o CD por um preço bem barato nas Americanas do Centro.Portnoy observou certa vez que não há banda de rock progressivo que se preze que não tenha uma música de mais de 20min. No caso do Dream Theater, os caras já tinham desde a época de “Images and Words” uma faixa de uns 17min, chamada “A Change of Seasons” com letra do próprio Portnoy, que acabou sendo vetada pela gravadora para inclusão naquele disco. Essa versão original - a qual, particularmente, entendo que remete ao som da banda durante a fase “When Dream and Day Unite” - foi apresentada em algumas ocasiões nas turnês de “IAW” e de “Awake”, e atendendo ao apelo popular, os caras compuseram novas partes e gravaram uma versão de estúdio (o mesmo que abrigou as sessões para “IAW” e com os mesmos engenheiros de som), notabilizando-se, ainda, por conter a primeira contribuição de Derek Sherinian como membro integral da banda (de fato, comparando-se as versões, percebem-se várias mudanças, inclusive nas letras, todas para muito melhor).
Particularmente, essa é a melhor faixa de 20min já composta pela banda, e é dividida em 7 partes: a primeira é instrumental e conta com um dedilhado de Petrucci acompanhado do piano de Sherinian (achava essa parte tediosa, até que aprendi a tocar o dedilhado e achei genial), seguindo-se um riff arrasa-quarteirão com a guitarra de 7 cordas, o baixo e o teclado de Sherinian, com timbre magnífico (não tenho dúvidas de que Sherinian registrou os melhores timbres de teclado nos discos da banda), além de várias seções instrumentais; a segunda parte começa com um pequeno solo de guitarra –mais uma vez parece parte integrante da música – que antecipa a melodia do refrão, seguindo-se os primeiros versos e um excelente refrão (nas primeiras audições achei supreendente um refrão tão cedo numa música de 20min... a música parecia já a caminho de terminar antes, no entanto, de ingressar na primeira terça parte... mas esse é um dos jeitos de se compor músicas longas); a terceira parte tem um dedilhado com guitarra limpa muito legal, que exige abertura e agilidade das mãos, mas fora isso não é tão complicado de tocar depois de muito treino (lembro que quando ouvia não sabia de onde saiam tantas notas daqueles acordes – só com o auxílio da tablatura que as cosias ficaram mais claras); a quarta parte é instrumental, com vários riffs e passagens técnicas bem legais; a quinta parte tem vocais e é bem dramática, e tem um solo longo e muito melódico de Petrucci; a sexta parte é outra instrumental; a última parte é uma espécie de gran finale, com um tema de guitarra e tudo mais. “A Change of Seasons” contém o melhor solo de teclado de Sherinian e de um tecladista da banda, e é a melhor e mais completa música de 20min que os caras já registraram.
Inicialmente a parte de covers é que atrai interesse mais imediato, mas o ouro mesmo é a faixa-título original e inédita. Afinal, depois de algumas audições, os covers ao vivo se tornam repetitivos e previsíveis, como qualquer disco de cover e como qualquer disco ao vivo. Mas é notável o excelente resultado dos medleys, tanto pela execução como pela escolha dos covers. A primeira é uma clássica de Elton John, “Funeral for a Friend/Love Lies Bleeding”, que permite uma longa introdução de Derek Sherinian acompanhado de solos de John Petrucci, que dá espaço para a empolgante segunda parte com vocais muito bons de James LaBrie.
Como fã de Deep Purple, teria pensado em uma centena de covers melhores ou mais interessantes (afinal, todas as bandas que não querem fazer cover de “Smoke on the Water” fazem cover de “Perfect Strangers”), mas deve-se admitir que a versão do Dream Theater para “Perfect Strangers” é muito boa, e traz como distinção a utilização da 7.ª corda no riff quebrado da parte instrumental (no original, a banda de Blackmore toca esse riff em A e depois em E, e o Dream Theater modula para B, uma cavalice).
A banda se revela, no entanto, nos últimos dois medleys: o primeiro, contendo três faixas clássicas e muito boas de rock do Led Zeppelin (“The Rover”, “Achilles Last Stand” e “The Song Remains de Same”), e o segundo, com músicas consagradas de diversas bandas (“In the Flesh” do Pink Floyd, “Carry On Wayward Son” do Kansas, “Bohemian Rhapsody” do Queen, “Lovin´ Touchin´ Squeezin´” do Journey, “Cruise Control” do Dixie Dregs, e “Turn It On Again” do Genesis). Diferentemente do caso anterior, as músicas escolhidas não são óbvias e a fidelidade – sobretudo na execução dos riffs de guitarra – é admirável (em alguns casos o cover, aqui, é melhor que o original).
O Dream Theater jamais veio a repetir essa estratégia de lançamento de um EP nesses termos; discos continuaram a ser lançados com regularidade, e durante um tempo a banda promoveu edições de Natal para os que se inscreviam para aquisição do CD especial no site, contendo mais covers, demos, remixes e edições alternativas – mais recentemente, Portnoy abriu seu baú de raridades e através da Ytse Jam Records são lançados discos do tipo “bootlegs oficiais” contendo shows especiais (a execução na íntegra de “Master of Puppets”, “The Number of the Beast”, “Dark Side of the Moon”, “Made in Japan”) e demos dos discos de estúdio (v.g., “Awake Demos”).
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Discografia Dream Theater - Parte III "Awake" (1994)
Mais ou menos na mesma época em que descobri o “Images and Words”, tomei contato com o “Awake” mediante locação na TV3 e gravação numa C-60 (provavelmente exclui “Space-Dye Vest” para caber na fita). No caso de “Awake” levei mais tempo para absorver a música do Dream Theater: o disco é longo (mais de 74 min) e as músicas de modo geral são compridas, de maneira que foi só quando no verão de 1996, em Torres, que ouvi com atenção o riff inicial de “The Mirror”, e então dei mais atenção e curti melhor as demais faixas. Em 1996 ainda estava longe de serem lançados no Brasil os discos do Dream Theater, e assim a versão que tenho é importada e adquirida na CD Express que ficava na Av. Independência.“Awake”, de 1994, é um disco completamente diferente de “Images and Words” e marcou o fim de uma era do Dream Theater. O disco é pesado, sem hits nem canditados a hit, detalhadamente produzido, e - o mais decisivo - o último com Kevin Moore nos teclados. Aparentemente o cara estava insatisfeito com o som que a banda vinha fazendo e o ritmo das turnês e resolveu cair fora quase na mesma época do lançamento do disco, optando por uma carreira solo errante cujo maior êxito foi o projeto OSI (Office of Strategic Influence), capitaneado por Moore e Jim Matheos do Fates Warning (e que contou com Mike Portnoy na bateria pelos primeiros dois discos). Essa época turbulenta parece ficar evidente na letra de músicas como “6:00” (que abre o disco) e no clima de “Space-Dye Vest” (que fecha o disco), ambas de autoria do próprio Moore. Curiosamente, muitos dos melhores timbres de teclado registrados em estúdio pelo Dream Theater estão em “Awake” (“6:00”, “Caught in a Web”, “The Mirror”). Fato é que para a posição de tecladista foram promovidos testes com diversos candidatos, e o que se conta é que Jordan Rudess não quis ou não pôde assumir o posto à época, e então foi recrutado Derek Sherinian, já conhecido por sua participação no “Alive III” do Kiss (só recentemente foi revelado que sua participação se resumia à reproduzir nos teclados, com um timbre apropriado, a guitarra base de Paul Stanley, suprindo os vazios enquanto este pulava, cantava e dançava – e não tocava guitarra - no palco), além das turnês e discos de estúdio com Alice Cooper (conta-se que Sherinian tirou de ouvido toda a discografia do vocalista para a sua audição, e que Cooper chamou-o de “um verdadeiro rock star”, no bom sentido de certo, e o próprio tecladista afirmou que queria ser um "Gene Simmons do prog rock"). Sherinian foi admitido provisoriamente, para a turnê de “Awake” (de onde saiu um vídeo com uma apresentação em Tóquio, que foi o primeiro que assisti da banda em 1997 ou algo assim – nunca esqueço da desafinada forte de LaBrie em “6:00”: “Can´t KEEEEEP what he says (...)”), mas acabou integrando-se ao grupo definitivamente em 1995.
O disco abre de forma incomum com um rolo e uma levada de bateria de Portnoy: “6:00” tem letra de Moore e aparentemente trata de alguém enfastiado com a rotina diária de pequenos afazeres. LaBrie inaugura um novo estilo de vocal, mais agressivo, combinando com o clima sombrio que predomina em “Awake” (durante a turnê subsequente, no entanto, LaBrie sofreu ruptura das cordas vocais após um episódio de intoxicação alimentar, e a falta de pausa para um adequado tratamento prejudicou a performance do vocalista pelos anos que vieram; esse fato é perceptível já no disco seguinte – “Falling Into Infinity” – onde predominam registros mais baixos). Seguindo o padrão de “Images and Words”, o solo (muito legal, com belo timbre) da faixa é de teclado – e não de guitarra – e lembro de como achava legal uma banda na qual o guitarrista era tão bom mas ao mesmo tempo não se incumbia de tocar todos os solos de todas as músicas. De fato, durante muitos anos sequer sabia quais faixas tinham solos de guitarra, pois muitos deles são tão bem encaixados que parecem partes integrantes das músicas (quando não são apenas duetos com teclado/baixo). Não por acaso (e essa foi uma convicção que cultivei por bastante tempo) não conseguia dizer, entre Eddie Van Halen, Joe Satriani e John Petrucci, qual era o melhor guitarrista (entendido melhor como mais completo, com som mais característico e de difícil ou impossível imitação; hoje em dia já descartei Satriani e Petrucci, pois ambos, a essa altura de suas carreiras, parecem já ter demonstrado todo o seu conhecimento e estão apenas se repetindo nos seus respectivos lançamentos mais recentes). Com a saída de Moore, e de forma mais proeminente após a saída de Sherinian, os teclados deixaram de ocupar posição tão destacada, passando a ser secundário (ou menos) em relação à guitarra de Petrucci – o que é uma pena.
“Caught in A Web” é o primeiro registro do Dream Theater com Petrucci utilizando uma guitarra de 7 cordas, e de forma inusual para a banda os créditos para a letra são atribuídos a LaBrie e Petrucci (geralmente apenas um músico compõe uma letra). Não há maiores introduções: a música já começa com a banda inteira acompanhando o riff de guitarra, e Moore se destaca com uma melodia executada com um belo timbre de teclado. A faixa não supera muito os 5min, e encontra espaço para uma parte instrumental muito boa, com dobras de guitarra, baixo e teclado utilizando muitos cromatismos (essa parte chegou a ser exemplo de Petrucci em lição de revista de guitarra a respeito da utlização dessa técnica). A estrutura é de uma autêntica música de heavy metal, com a distinção de que na época Petrucci não compunha riffs comuns de heavy metal (o mesmo não se pode dizer a partir de “Train of Thought”). Ao vivo, durante anos, “Caught in A Web” acomodou o solo de bateria, e há ainda uma versão híbrida na qual os caras executam riffs e partes de “New Millenium” do disco “Falling Into Infinity”.
Se há alguma música ruim composta pelo Dream Theater, uma das candidatas é “Innocence Faded”. Acho detestável o início com um teminha de guitarra, mas quem tiver estômago para seguir em frente encontrará muitas partes diferentes em pouco mais de 5min, inclusive uma boa parte instrumental ao final, encerrando com um solo de Petrucci (a música se encaminha para o final no último refrão, mas volta para mais uma parte instrumental com solos de guitarra). Bem vistas as coisas, é uma música com altos e baixos, provavelmente decorrente de uma colagem imperfeita de partes diferentes compostas sem destinação específica (sabendo-se como se sabe que se há um método de composição do Dream Theater, este se baseia na reunião de riffs e partes compostos separadamente).
A melhor faixa instrumental de toda a discografia da banda é “Erotomania”, que inaugura uma espécie de suíte no meio de “Awake”. Pelo encarte do CD o único esclarecimento é que “A Man Beside Itself” é composta de “Erotomania”, “Voices” e “The Silent Man”, e todas elas apareceram desta forma no triplo ao vivo “Live Scenes From New York”. “Erotomania” serve para demonstrar, mais uma vez (mas ainda mais enfaticamente), a técnica de John Petrucci. Em pouco mais de 6min, a faixa alterna partes com cromatismos, riffs de heavy metal, dedilhados, melodias, momentos eruditos, sendo que o clímax é atingido numa parte em que Petrucci executa um padrão rápido com 6 notas por corda e com saltos, criando um efeito espetacular (para quem tem um pouco mais de treino com palhetadas e saltos de cordas, essa parte pode não ser tão difícil de reproduzir; a Burnin´ Boat abriu um show no Coruja de Minerva para a Hiléia, em 2004, e os caras executaram na íntegra e com perfeição essa música). É um instrumental matador, com todas as suas diferentes partes perfeitamente interligadas, num resultado que a banda não conseguiu repetir – pelo menos com a mesma empolgação – em oportunidades posteriores.
“Voices” é o primeiro épico do disco e é uma música muito boa, que chama a atenção pela estrutura incomum e suas diversas partes. Uma música de 9min do Dream Theater, nessa época, é certeza de muitos climas, mudanças de andamento, partes calmas e agressivas, etc. Quando entram os instrumentos até a parte cantada são executados riffs pesados com quebras muito boas. Os versos, por sua vez, são os momentos mais calmos, nos quais sobressaem a interpretação de James LaBrie, que por isso mesmo, acabou se tornando o vocalista imprescindível da banda (ninguém consegue imaginar outro vocalista para o Dream Theater – LaBrie conseguiu impor desde logo sua marca em todas as músicas dessa época, mesmo que se saiba das limitações do cara nas apresentações ao vivo). O refrão é muito legal, tanto pelos versos como pela parte de guitarra e teclado.
“The Silent Man” é uma balada excelente, com voz e violão, praticamente num estilo Mr. Big encontra Jimmy Page, composta por John Petrucci. Há vários acordes bonitos, não tão difíceis de tocar, e o refrão é marcante. O solinho de violão é curto e preciso.
É comum que após um momento calmo (como uma balada), as bandas toquem, logo na sequência, uma música bem agressiva. Pois este é o caso de “Awake”, no qual após “The Silent Man”, com seu clima de praia e “toca-aquela-do-Led-aí”, vem uma paulada na orelha com “The Mirror”. E se “Images and Words” não contou com letras de Portnoy, o mesmo não ocorreu em “Awake”. O baterista compôs a letra da música mais agressiva do disco (“The Mirror”), somando-se a John Petrucci para essa tarefa com mais força nos demais discos subsequentes (James LaBrie e John Myung contribuem em muito menor medida, e contrariamente ao caso de Portnoy, suas participações diminuem a cada disco). Os primeiros minutos de “The Mirror” – até o início dos versos – são a melhor parte, já haviam sido compostos à época de “Images and Words” e tinham o nome de “Puppies on Acid” (isso acabou aparecendo no duplo ao vivo “Once in a Livetime”). Trata-se de um riff executado com pausas na região mais grave da guitarra de 7 cordas abafadas, repetitivamente, mudando apenas a levada da bateria e os acordes tocados no teclado climático de Moore. Esse é o “Momento Lucky Strike” do disco: o teclado climático, as mudanças na levada de bateria e o riff monumental de guitarra bem repetitivo. Evidentemente que a música tem 7min e não fica por aí. Ao final já emenda com a próxima, “Lie”, outra que tem um riff pesado de guitarra de 7 cordas, só que a faixa é mais dinâmica. Acho até que as duas músicas poderiam funcionar como uma grande música de 14min, mas não é comum serem ambas executadas dessa forma nas apresentações ao vivo. “Lie” é uma das poucas músicas da época de Kevin Moore que contém um longo e característico solo de guitarra de John Petrucci, sem, no entanto, o exagero das fritadas que assolam os solos do guitarrista nos álbuns mais recentes.
Após tanto peso, “Lifting Shadows of a Dream” acalma o ânimo, sendo certo que se trata da melhor faixa composta por John Myung (admito que alguém pode debater que “Learning to Live” seria a melhor... e que “Trial of Tears” é boa de ouvir). A faixa começa com um riff de baixo executado com tappings e harmônicos naturais, formando uma bela melodia. O refrão é cantado por LaBrie com delicadeza, e a faixa ainda tem umas boas partes de guitarra limpa (com delays e tudo mais) e com distorção.
Outro épico de 11min é “Scarred”, com letra de Petrucci, e também começa com uma marcação no ride de Portnoy e uns acordes com tapping no baixo de Myung. Petrucci faz um solo introdutório, daqueles que não parecem solo e sim parte integrante da faixa, mais ou menos no estilo Steve Howe e Alex Lifeson. Gosto de toda a instrumentalização, com variações climáticas (pesado e suave) e ainda do refrão, com uma espécie de groove, destacando-se as diferentes melodias dos vocais e da guitarra. É um tipo de música – tanto quanto “Voices” e “Trial of Tears” - que a banda não faz mais (os épicos parecem mais padronizados e previsíveis a partir de “Train of Thought”).
Moore compôs sozinho “Space-Dye Vest” e, por essa razão, a música é conhecida por ser a única que a banda jamais interpretou ao vivo (Portnoy alega que se trata de uma composição muito pessoal de Moore, e que só poderia ser executada ao vivo com o tecladista no palco – o que já foi tentado diversas vezes, e sempre rejeitado por Moore; o cara já expressou que quer se desvincular do seu passado com o Dream Theater). De fato, a faixa remete ao trabalho que posteriormente foi desenvolvido por Moore em seus demais projetos.
“Awake” é um disco pesado e de não muito pacífica audição para iniciados e não iniciados, distanciando-se em certa medida de “Images and Words”, mas com certeza é um trabalho sólido e bem mais representativo da discografia da banda do que a maioria dos CDs mais recentes. Começa a ficar claro que em se tratando de Dream Theater, nenhum disco é igual ao outro e nenhuma música é igual ou parecida com outra, seja da banda, seja de outra banda, sendo certo que isso não mais pode ser dito a partir de, pelo menos, “Metropolis Pt. 2: Scenes From a Memory”.
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Discografia Dream Theater - Parte II "Live at the Marquee" (1993)
Praticamente para cada disco de estúdio do Dream Theater há um correspondente disco ao vivo (simples, duplo ou triplo - !) com o registro da turnê respectiva, e essa prática iniciou cedo, já na época do “Images and Words” com um “Live at the Marquee”, de 1993. No CD contém parte do show na lendária casa londrina, contendo as principais faixas de “Images and Words” e de “When Dream and Day Unite” (o primeiro disco da banda), além de uma faixa instrumental inédita que aparentemente é uma jam (“Bombay Vindaloo”, com direito a solos de guitarra ao estilo Al Di Meola). O CD abre com “Metropolis PT. 1 (...)”, e desde logo fica evidente o timbre magro da guitarra de Petrucci nas apresentações ao vivo. Segue-se a melhor do “WDADU”, “A Fortune in Lies”, que contém uns riffs bem pesados de guitarra após a introdução e durante os versos, e cujo clímax é uma parte inteira no qual guitarra, baixo e caixa de bateria executam um padrão quebrado e rápido de uma nota só, acompanhado de um teclado climático típico de Moore, seguindo-se após um tradicional solo de guitarra (não muito comum à época para a banda) com vários arpejos de 6 cordas. “Surrounded” não ficou tão legal quanto a versão de estúdio, especialmente porque naquela parte mais rápida o delay stereo de Petrucci não funciona com a mesma eficiência nessas condições. “Another Hand – The Killing Hand” é um clássico do primeiro disco, com excelentes vocais de LaBrie e uns riffs de heavy metal matadores. O disco fecha com o hit “Pull Me Under”. Se o timbre magro da guitarra de Petrucci pode perturbar a audição, o mesmo não se pode dizer dos excelentes vocais de LaBrie durante a performance (o cara é agressivo e gentil na mesma medida das versões de estúdio, e interpretou com maestria as duas da época de Charlie Dominici). Além disso, o registro ao vivo permite aferir o grau de fidelidade da execução das músicas em comparação com as versões originais, e lembro de quem – nos tempos em que não havia sites de vídeos ou programas de compartilhamento de mp3 – achava o máximo quando descobria algum bootleg contendo um erro qualquer da banda em alguma música (de qualquer maneira, ficávamos admirados com a precisão do Dream Theater nesse sentido). Ouvi pela primeira vez o CD em alguma época entre 1997 e 1999 mediante locação na MadSound; a aquisição foi bem mais recente, e também não lembro se comprei da própria MadSound (acho que não), ou se de uma loja do Centro ou mesmo se o Bruce não me deu o que ele tinha (mais provável).
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Discografia Dream Theater - Parte I "Images and Words" (1992)
No decorrer do 3.º ano do 2.º grau, em 1995, os professores do meu colégio resolveram adotar o famigerado “espelho de classe”, a fim de coibir as conversas paralelas em sala de aula; assim, seriam dissolvidas as “panelinhas”, reunindo pessoas em mesas próximas que aparentemente não teriam afinidade, e consequentemente o silêncio e a concentração se imporiam durante as aulas. Escolheram, então, para sentar na minha frente a Dige, que notoriamente tinha conhecimentos musicais a respeito das grandes bandas de hard rock dos anos 1980, sendo certo que ela era, além disso, irmã de um cara que foi baterista da (que veio a ser) mais conhecida banda de heavy metal do Estado. Não demorou para que começássemos a compartilhar o headphone do discman dela, e numa das aulas de religião, ela pôs para rodar o disco de uma banda que nunca tinha ouvido falar: “Images and Words” do Dream Theater. Lembro perfeitamente de como fiquei bem impressionado com o timbre marcante da bateria e os riffs iniciais da primeira faixa “Pull Me Under”: há uma longa introdução com um dedilhado com a guitarra limpa, uns solos curtos de teclado e a bateria fabricando o clima com tons, bumbo e caixa, culminando num grande riff de heavy metal com umas quebradas bem interessantes (e inéditas para mim até então). Fiz backup numa C-60 (o mesmo fiz, em seguida, com o “Awake”, alugado na TV3), mas só ouvi o disco com atenção tempos depois, no verão de 1996, e fui cativado pelos refrões de “Pull Me Under” e de “Take the Time” (notável o poder de um bom refrão...). Tão logo cheguei da praia, me dirigi à agora extinta Mad House e comprei dois CDs excelentes: o “Images and Words” (à época só importado) e o disco solo de Ace Frehley de 1978 (à época e ainda hoje só importado). E a cada audição me tornei fã do disco e fã do Dream Theater. Além dessas, ouvir “Images and Words” teve outra conseqüência particular: preparar o ouvido para bandas de rock progressivo (notadamente, Yes), das quais virei fã na sequência.De fato, naqueles anos fatídicos de início da predominância do grunge e do ostracismo do hard rock farofa e de todos os bons instrumentistas de som pesado em geral (início da década de 1990), o Dream Theater havia sido recém contratado por uma grande gravadora e lançara em 1992 um disco que pode ser considerado inovador. Afinal, tinha elementos de heavy metal, mas ao mesmo tempo trazia outro tipo de som que remetia ao rock progressivo, notadamente pelas longas passagens instrumentais, mudanças de andamento (calmo, pesado, rápido, lento), andamentos complexos (todo o tipo de contagem de tempos), tudo isso proporcionado pela técnica sem-reparos-a-serem-feitos exibida pelos seus cinco integrantes (vocal, guitarra, baixo, teclado, bateria). Particularmente, então, o maior destaque era o ineditismo dessa combinação: nunca tinha ouvido riffs bons de metal em meio a passagens mais melódicas típicas de outros estilos musicais. Havia músicas compridas, mas não enfadonhas. O som do Dream Theater era empolgante, e à época ninguém tocava esse som com tanto êxito: pesado, melódico e técnico. Ao mesmo tempo, apesar das influências que eventualmente se podiam identificar, nada que os caras tocavam poderia ser imediatamente referido como “ah, já ouvi isso antes no disco ‘X’ da banda ‘Y’” (em tempo: definitivamente, o mesmo não se pode dizer da banda atualmente). Geralmente se tenta rotular música desse tipo, e uma das aproximações mais sugestivas talvez seja a do próprio guitarrista John Petrucci, segundo o qual o som do Dream Theater seria uma combinação de Metallica com Yes, sem esquecer que uma das maiores influências é o Rush.
Essa característica marcante da banda já fica bem evidenciada na primeira faixa de “Images and Words”: dedilhado, riff metal, versos com acordes incomuns, pós-verso metal, segundo verso e pré-chorus virtuoso, refrão com Power chords, outro riff metal, verso virtuoso, pós-verso metal, pré-chorus virtuoso, refrão com Power chords, dedilhado inicial alterado, solo de guitarra na manha (com bends e uma pequena fritada de notas ao final), refrão com Power chords, e final com outro riff metal com parada abrupta. Isso em 8 minutos. Talvez não seja por acaso que esse é o único single da banda (fato que deu à única coletânea da banda o seu nome: “Greatest Hit and Other Pretty Cool Songs”). Trata-se, de fato, de uma música excepcional, verdadeiro “Smoke on the Water” ou “Paranoid” da banda (mal comparando). E é uma das minhas favoritas dos caras, que nunca canso de ouvir.
A segunda faixa é uma surpreendente balada, na verdade praticamente uma power ballad típica dos anos 1980. Como geralmente acontece(cia) em se tratando de Dream Theater, parece uma faixa simples de tocar: uns acordes, uns solos com notas bem colocadas, estrutura verso-refrão-pontes e interlúdios.... entretanto, os acordes são sofisticados (pelo menos para a maioria dos roqueiros... para alguém ligado ao progressivo deve ser barbada), bem como os solos, e há diversas partes diferentes. Aqui James LaBrie canta no seu registro alto, como é típico nesse gênero de música. Já aqui a banda demonstra capacidade para criar hits radiofônicos, que geralmente e por ironia são ignorados pelas rádios. Além disso, como boa banda de progressivo, os caras mostram que sabem compor também músicas curtas - mas intensas -, e não apenas longas faixas.
“Take the Time”, aliás, é a terceira do disco e tem um refrão tão cativante quanto o de “Pull Me Under” (talvez mais, até), e não por acaso se trata da música mais empolgante do disco. A banda faz uma introdução instrumental, executa o riff principal (com acordes bem dinâmicos) que serve de refrão, e dá uma parada para entrar os versos, acompanhados por umas quebradas na bateria e uma guitarra tipo suingada. São mais de 8min de música, que inclui até um encerramento falso (quando pensa que acabou, a música volta para um desfecho triunfal até o “fade out” com direito a solo virtuoso de guitarra). Aparentemente, a letra teve contribuições de todos os integrantes e retrata o período no qual a banda ficou sem vocalista, inobstante continuasse a compor freneticamente os seus primeiros clássicos. Só com “Pull Me Under” e “Take the Time” o disco já valeria ouro, ocupando aproximadamente 1/3 do tempo total das faixas.
Não se pode desconhecer que nessa fase da banda o tecladista Kevin Moore exercia papel central, tanto nas letras quanto nos arranjos das músicas. Afinal, o cara escreveu as boas letras de “Pull Me Under” e de “Surrounded” (conquanto não tenha o costume de conhecer as letras de todas as músicas, entendo que essas duas são muito boas), além de ter executado a maior parte dos solos em diversas faixas (ocupando papel tradicionalmente reservado para o guitarrista). “Surrounded” parece ser outra balada, mas lá pela metade ganha uma dinâmica muito legal. Começa com acordes ao piano, que acompanham os versos; Petrucci entra com solos melódicos (não parecem solos, e sim partes integrantes da música, essa é a beleza da banda na época), e então entram os demais instrumentos com partes bem trabalhadas (especialmente, como de costume, a parte de Mike Portnoy). Depois de “let the light surround you” a música fica mais rápida (i.é, empolgante) e Petrucci toca um tema que parece muito difícil de executar, não fosse o forte delay stereo empregado, dando um efeito sensacional. LaBrie canta alto como nunca nessas partes mais vibrantes. A calmaria volta no encerramento dessa faixa que durante tempos foi das minhas favoritas.
Assim como fora com “Another Day”, John Petrucci compôs as letras de “Metropolis Pt. 1: The Miracle and the Sleeper” e de “Under a Glass Moon”, o que me pareceu bastante curioso, pois não conhecia muitos guitarristas tão prolíficos. Em 1992 não havia bandas famosas que fizessem músicas épicas, com aproximadamente 10min de duração, inúmeras partes e com alta demonstração de técnica nos instrumentos (depende de definição se se pode considerar Fates Warning uma banda famosa fora da cena do “metal progressivo”, e sabendo-se que o Rush, por outro lado, já tinha popularizado o seu som desde a década de 1980 e estava distante do rock progressivo dos anos 1970). É possível que “Metropolis Pt. 1 (...)”, com seus 9min, tenha mais partes que a íntegra dos discos mais vendidos de grunge da época. E se trata mesmo de uma faixa grandiosa. Detalhá-la seria uma tarefa inútil, então destaco o peso dos versos (com um padrão de palhetadas na 6.ª corda solta, tipo um Metallica com um baterista prog) e a grande parte instrumental que foi nitidamente encaixada entre as partes cantadas. Durante algum tempo, no final dos anos 1990, ouvia (até de pessoas próximas) e lia (em revistas e sites) comentários do tipo que “o Dream Theater só se exibe, puro virtuosismo sem sentimento” e tal, e acredito que essa faixa possa ter contribuído para a divulgação desse pré-conceito. Particularmente, ouvia essa e as demais faixas de “Images and Words” em alto e bom som, e “sentia o sentimento” – como diria um folclórico treinador de futebol. E lembro e admito que numa dessas audições reparei que quem ouvisse a música a partir da parte instrumental acharia uma barulheira infernal (especialmente quando o “snare” de Portnoy é mais acionado). Petrucci confessou que não havia nem ideia nem projeto para uma “Pt. 2” sugerida por essa “Pt. 1”, e que seria apenas uma estratégia da banda ou da gravadora para intrigar os ouvintes. Sei que numa entrevista na época da divulgação do “Falling Into Infinity”, em 1997, o guitarrista falou que para os que achavam que “FII” não era prog o suficiente, que esperassem para ver o que eles estavam aprontando numa faixa que teria o tamanho de “A Change of Seasons” (mais de 20min) e que seria a continuação de “Metropolis Pt. 1 (...)”. Agora se sabe que a banda, de fato, com Sherinian e tudo, compôs e registrou partes do que seria essa “Metropolis Pt. 2”, e que isso evoluiu para (a) a demissão de Sherinian em favor de Jordan Rudess, após o sucesso do projeto paralelo Liquid Tension Experiment, o qual, por sua vez, envolveu Rudess, Portnoy e Petrucci; e (b) a gravação de um disco conceitual inteiro em função de “Metropolis”, o aclamado “Scenes From a Memory”. Não é por acaso, então, que se “Pull Me Under” é a “Smoke on the Water” ou “Paranoid” do Dream Theater, “Metropolis Pt. 1” seria uma espécie de “Highway Star” ou “War Pigs”.
As partes mais legais de “Under a Glass Moon” são os duetos instrumentais, sobretudo as dobras de Petrucci e Portnoy, sendo que o mais legal, mesmo, é a levada de bateria que vai até o início da parte cantada (é uma levada de Portnoy que está sempre na minha cabeça). Quando LaBrie começa a cantar a banda toda (com exceção de Moore, que toca uma melodia climática nos teclados) trabalha num padrão cheio de pausas aparentemente imprevisíveis ou mesmo sem obedecer a um padrão: é o Dream Theater levando a sério e mais longe algumas ideias já promovidas pelo Rush. A interpretação de LaBrie, aqui e também em todo o disco, é muito boa e segura – o cara soltou a voz e estabeleceu o padrão de excelência para os discos do Dream Theater.
Moore compôs uma pequena peça para piano e voz que alterna tempo quebrado e tempo certo (4/4 e 3/4), e que serve de prelúdio para a faixa mais longa do disco, “Learning to Live”, com letra de John Myung. Como não é novidade, a faixa alterna momentos calmos e agressivos, lentos e rápidos, mas não é das minhas favoritas, embora contenha um bom refrão, boas partes instrumentais (antes dos versos há uma levada de baixo e bateria que lembra Chris Squire e Alan White/Bill Bruford) e uns gritos bem agudos e expressivos de LaBrie lá pelas tantas.
Para alguns, “Images and Words” é a representação do virtuosismo a qualquer custo (ou simplesmente um disco chato), mas particularmente entendo que se trata do disco no qual o Dream Theater realmente foi inovador pelo modo como abordou rock progressivo dos anos 1970 e o heavy metal dos anos 1980 e 1990 e inaugurou - ou capitaneou a inauguração de - um novo gênero, o prog metal, sendo um parâmetro de comparação com os futuros lançamentos e mesmo com o material de centenas de bandas que passaram a se dedicar a um som pesado e altamente técnico em relação a todos os instrumentos (e não só guitarras). Tavez por isso tenha o mérito de ser um dos melhores discos de todos os tempos, ou no mínimo um disco essencial. Além disso, “Images and Words” serve para abrir a cabeça de quem é fã de heavy metal para ouvir bandas de rock progressivo – e quem sabe serve também para os fãs de rock progressivo abrirem a cabeça em favor do heavy metal.
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