terça-feira, 10 de novembro de 2009

CDs do Kiss - Parte I "Animalize" (1984)

Já tive duas oportunidades para escrever sobre um dos meus discos favoritos do Kiss (e de hard rock em geral), o “Animalize” de 1984. Não por acaso, trata-se do primeiro álbum da banda que tomei contato, nas férias de inverno de 1993. A primeira resenha foi logo no começo deste blog (2003), quando me propus a escrever sobre os “discos obscuros” do Kiss. Anos depois, numa série sobre “discos essenciais” (2004), registrei as opiniões que me levavam a considerá-lo como tal. Convém, então, reproduzir esses comentários iniciais para inaugurar a série de resenhas sobre discos do Kiss (não perdi a oportunidade para atualizar algumas anotações, devidamente marcadas pela chave []):

“26.07.2003 - ANIMALIZE – lançado em 1984, segue a linha hard rock dos discos anteriores (CREATURES OF THE NIGHT e LICK IT UP), mas sugere o som que viria nos discos posteriores. Mark St. John, um desconhecido professor de guitarra, entra no lugar de Vinnie Vincent, despedido em razão de sua personalidade extravagante. O racha da banda entre Gene Simmons e Paul Stanley é bem marcante – basicamente, um não participa das faixas compostas pelo outro. Nas músicas de Paul, quem gravou o baixo foi Jean Beauvoir; nas de Gene, quem gravou guitarras foi o próprio ou então Mark. Cada um produziu suas próprias faixas. Entendo que a produção desse disco é muito boa – [sobretudo diante do fato de que, em regra,] os discos de estúdio do KISS tendem a não refletir as performances das apresentações ao vivo. No caso de ANIMALIZE, as músicas aparecem muito bem, e resistem ao teste do tempo (com exceção dos solos de Mark, que, pelo timbre, soam extremamente datados). O bumbo da bateria também ficou prejudicado (mal se ouve o bumbo duplo em UNDER THE GUN).

As melhores músicas de ANIMALIZE são as de Paul. I´VE HAD ENOUGH abre o disco de forma vigorosa (como geralmente acontece nos discos da banda). Muito boa letra, riffs pesados e rápidos – gosto muito dessa música. Destaque para Eric Carr, numa levada bem criativa
[hi-hat, caixa e bumbo, além da expressiva utilização dos ton-tons nos rolos], acompanhando o riff e desenvolvendo nos versos. Aqui se encontra o melhor solo gravado por Mark. Há um interlúdio antes e depois do solo, muito bem sacado [pois cria uma tensão bem legal que se resolve num grito bem alto de Paul e na volta para o refrão].

HEAVENS ON FIRE é o hit que ajudou a alavancar as vendas do álbum (teve até um vídeo promocional, bem veiculado pela MTV
[e é notável por servir como única "apresentação" oficial de Mark St. John com a banda]). Extremamente simples, sedimenta a parceria entre Paul e Desmond Child (o mesmo que compôs músicas para Aerosmith, Bon Jovi e Ricky Martin [- e para o próprio Kiss, como "I Was Made For Lovin´ You"]).

BURN BITCH BURN começa com um riff bem pesado e traz Gene numa letra jocosa, sobre mulheres e sexo, bem ao seu gosto. Eric acompanha muito bem na bateria.

GET ALL YOU CAN TAKE é a música mais fraca de Paul nesse disco
[agora já me acostumei e até curto a faixa]. No riff principal (que serve de refrão) há uma ‘virada’ característica (veja THE OATH e KEEP ME COMIN). Os vocais de Paul estão extremamente agudos (high-pitch).

LONELY IS THE HUNTER começa com um riff interessante, mas exaustivamente repetido durante a faixa. Curiosidade: inexplicavelmente o solo é de Bruce Kulick (mas isso não faz a menor diferença, pois é bem similar aos registrados por Mark).

UNDER THE GUN é a correria de Paul no disco. Eu gosto dessas músicas rápidas de Paul – dão uma equilibrada no disco. Fantástico o final da música, com Mark correndo atrás da bateria.
[Da mesma forma que em "I´ve Had Enough", há um interlúdio muito bem composto antes dos solos. Até hoje não sei tocar essa parte e nem imagino como tocaria, apesar de já ter prestado bastante atenção nos movimentos da mão esquerda de Paul naquele vídeo da "Animalize Tour".]

THRILLS IN THE NIGHT é outra que eu gosto bastante. O som remete totalmente aos anos 80, mas a música é muito bem feita. Eric é o maior destaque, acompanhando os versos no tom
[o cara preticamente não utiliza a caixa aqui], de maneira bastante original. O solo de Mark é bom também, pertinente à música (dentro do possível). Aqui, Paul também é muito feliz nos interlúdios (antes e depois do solo).

WHILE THE CITY SLEEPS e MURDER IN HIGH HEELS são de Gene e fecham o disco. Nada memoráveis: ambas apresentam boas idéias, mas pecam pela falta de objetividade – ficam girando em torno do riff, não apresetando nada inovador, ou que valha alguma audição mais atenta.

Concluindo: honestamente, admito que ANIMALIZE é um disco apenas razoável
["Animalize" é do car@lho, "honestamente admito" que é um baita disco, isso sim]. Mas que eu gosto bastante, particularmente (há pelo menos 3 grandes músicas, todas de Paul: I´VE HAD ENOUGH, UNDER THE GUN e THRILLS IN THE NIGHT, sem contar o hit HEAVENS ON FIRE). Vendeu bem na época, e marcou o último disco [até o "Revenge" de 1992] em que os integrantes apareceram nas fotos do encarte vestindo preto: a partir desse disco, a banda se tornaria irremediavelmente mais uma da onda hair metal que assolou o mundo musical nos anos 80. Esse disco representou também o início da fase improdutiva de Gene, que já se mostrava mais comprometido com sua (insípida) carreira cinematográfica. Dali em diante, Paul é quem iria comandar o destino musical da banda, tentando manter sua condição entre as bandas top, com resultados bastante irregulares.”

“02.11.2004 - Animalize é outro que já foi objeto de comentários neste blog, de modo que eu me reporto a todas as considerações oportunamente expendidas. Aqui cabem observações meramente complementares.

1993 foi o ano em que (aqui em casa) compramos um aparelho de cd. Na época (junho), locação de cds só na TV3 e na Vídeo World (uma praticamente ao lado da outra). A banda que eu estava viciado na época era AC/DC, de modo que fiquei encantado quando encontrei, na Vídeo World, em julho daquele ano, o cd DIRTY DEEDS DONE DIRT CHEAP (importado). Também encontrei, importado, o disco essencial epigrafado. Já havia lido algo sobre o Kiss, num catálogo de cds da Revista Bizz, além de ter as minhas próprias lembranças de infância (quando a banda esteve no Brasil em 1983).

E desde a primeira vez que ouvi, gostei de ANIMALIZE (não tanto quanto agora), gravando-o inteiro no lado B de uma fita de 90 minutos (o lado A foi ocupado por DIRTY DEEDS). As músicas que eu julguei as melhores na época, as tenho como melhores até hoje: I´VE HAD ENOUGH (melhor riff da banda), UNDER THE GUN e THRILLS IN THE NIGHT. Só que, durante algum tempo, eu confundia os vocalistas: achava que Paul era Gene e Gene era Paul. "Nossa, esse Gene canta muito!". E pior: achava que Paul era o guitarrista solo e Mark St. John, o guitarrista base.

Explica-se: na época, já sabia que Paul era da formação original - e assim, "raciocinei" que seria muito mais "lógico" que o guitarrista base fosse o substituído, pois, afinal, os solos eram muito "difícieis", e eu imaginava ser "impossível" a substituição de um cara que tocasse "tão bem" (tipo, que alguém tivesse de substituir um membro da formação original e tirar todos os solos antigos e tal)
[essa confusão só se desfez quando tive contato com o "Alive III", em julho de 1993, conforme resenha a seguir]. Enfim, mal sabia que 11 anos depois, ainda estaria ouvindo este e os outros discos essenciais da banda.

Não é segredo que esse disco, além de essencial, é um de meus favoritos de todos os tempos, pelos seguintes fatores: (a) um grande disco do Kiss, registrado em época desfavorável para a banda - 1984; (b) boas músicas, especialmente as de Paul, com as guitarras no melhor estilo hard rock dos anos 80; (c) a música I´VE HAD ENOUGH; (d) a participação brilhante de Eric Carr na bateria (as levadas de I´VE HAD ENOUGH e THRILLS IN THE NIGHT são matadoras); (e) único disco com Mark St. John, cuja meteórica passagem pela banda é motivo de muito interesse (pessoalmente falando) - e o cara, realmente, tocava muito bem
.”

Bem, para completar, registro que o Giuliano adquiriu o CD importado na Boca do Disco em 1995, e acho que no ano seguinte fizemos uma troca (por um bootleg do Metallica) e agora o CD está comigo. Ainda avalio a conveniência e oportunidade de adquirir a versão remasterizada (só importado: até quando??), pois o "Creatures of the Night" remasterizado tem um som espetacularmente melhor que o da versão anterior. Deve valer a pena, sobretudo porque é um disco que não canso de ouvir - e isso já faz 15 anos.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Resultado da enquete "Melhor disco dos Beatles"

Agradecendo aos votantes, posto o resultado final da enquete para registro.

Com 5 votos e disparado em 1.º lugar: "Abbey Road". Ainda não escrevi sobre esse álbum, o último gravado mas penúltimo a ser lançado pelo quarteto. Talvez a preferência se deva a uma clássica faixa de Lennon ("Come Together"), à possivelmente melhor composição de Harrison ("Something"), à outra composição universalmente conhecida de Harrison ("Here Comes the Sun"), e à lendária reunião de músicas incompletas que encerra o álbum.

Empatados em 2.º lugar, com 2 votos cada, ficaram "Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band" e "The White Album". Natural que esses discos fossem bem votados, pois cada um a sua maneira foram clássicos e definitivos para a banda e para a música rock e pop em geral.

Receberam um voto "Please Please Me", "Magical Mystery Tour" e "Let It Be" (fico imaginando quem votou no "Magical (...)" visto que é um disco diria não-essencial dos Beatles).

Não cheguei à conclusão definitiva para dar o meu voto... ficaria entre "Let It Be" (fiz uma resenha há alguns meses atrás, com a versão anterior não-remasterizada - ainda estou avaliando a conveniência de adquirir novamente esse disco na nova versão) e "The White Album", sem prejuízo, ainda, de "Revolver", "Rubber Soul" e "A Hard Day´s Night".

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

The Beatles remastered - "The Beatles aka The White Album" (1968)

Em viagem de algumas semanas à Índia, os Beatles compuseram a maior parte do material que viria a formar o próximo disco de estúdio. Tomou-se a decisão, talvez sem precedentes, de lançar um álbum duplo com todas as 34 faixas, ao invés de eleger as melhores e fazer um disco simples (as demais seriam distribuídas posteriormente, de diversas formas - singles, disco de sobras de estúdio, ou simplesmente inseridas em discos posteriores). Prevaleceu a ideia de liberar tudo para encerrar o ciclo e não deixar nada para trás. Até a capa rende assunto: depois de "Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band", cheia de referências, optou-se por uma capa minimalista, com um fundo branco e o nome da banda em relevo. Não por acaso, o disco "The Beatles" é mais conhecido como "The White Album". O primeiro disco do "Álbum Branco" começa em alto e bom ritmo com "Back in the U.S.S.R.", um exercício de McCartney sobre o som de Beach Boys e uma homenagem a Chuck Berry ("Back in the U.S.A.". As músicas mais elétricas e rocker dos Beatles costumam ser muito boas, e esse álbum duplo contém várias clássicas. Indiscutivelmente que um dos destaques é uma faixa com título ridículo e refrão tosco ("Ob-La-Di, Ob-La-Da" e "Ob-La-Di, Ob-La-Da life gos on bra/Lala how the life goes on"). O que interessa, no entanto, é que se trata de mais uma composição melódica e espetacular de McCartney, conduzida pela linha de baixo pulsante. "The Continuing Story of Bungalow Bill" parece aquelas músicas compostas de gozação, mas é interessante a linha de baixo com slides longos. Além disso, conforme a wikipedia, a introdução de violão flamenco, na verdade, foi executada utilizando-se um preset de Mellotron. Uma das melhores e mais conhecidas composições de George Harrison foi registrada nesse àlbum branco: "While My Guitar Gently Wheeps". O início é portentoso com um piano insistente; a faixa é conduzida por violões, e pontua em toda a faixa solos de guitarra. Notoriamente Eric Clapton fez participação especial (não há nenhum virtuosismo - os solos são com pentatônicas, muitos bends e slides); o amigão de Harrison, além de mandar ver na "slow hand", ainda serviu para desanuviar o clima durante as gravações. Afinal, nessa época Yoko Ono começou a se fazer (oni)presente, para desconforto dos demais (exceto Lennon e seu macaco). Lennon declarou oportunamente que em "White Album" estão algumas de suas melhores composições, e conforme o "Rough Guide" dos Beatles que estou lendo em ritmo lento, "Happiness is a Warm Gun" é uma das suas favoritas (conforme o wikipedia, é a favorita de McCartney nesse disco). A letra é apta a muitas interpretações, e nem vou entrar nesse terreno complicado; acho bom o timbre da voz de Lennon na parte "Mother Superior jump the gun", bem grave e distinto. A faixa é característica por suas múltiplas e sofisticadas mudanças de andamento, que seriam típicas de bandas de rock progressivo. Realmente é complicado acompanhar essas mudanças de 4/4, 5/4, 9/8 etc etc, tornando a audição intrigante. "Martha My Dear" tem instrumentação bem sofisticada (em alguns momentos me lembra Chris Squire no baixo), com melodias diferentes no piano, na voz, nos instrumentos de sopro e baixo, na parte inicial, que alterna com uma outra parte mais rápida. Particularmente não gosto de músicas nas quais o vocalista canta o quanto está cansado de alguma coisa... esse tipo de lamento é muito fácil de fazer. E Lennon faz exatamente isso na faixa "I´m So Tired": em todos os versos o cara inicia com "I´m soooooo tired". Aparentemente ele canta sobre o período na Índia, que teria sido rico em momentos tediosos. Mas francamente não preciso ouvir o cara dizer o quanto ele está entediado: "vai arrumar alguma coisa pra fazer com a grana que tem no banco, então". No vídeo que vem de bônus com o CD remasterizado há uma cena da gravação de "Blackbird": é apenas McCartney com um violão, batendo os sapatos no chão, marcando o ritmo como metrônomo. A melodia e os acordes são muito bonitos (o mesmo se pode dizer de "Mother Nature´s Son" do CD2). O nome da faixa "Rocky Raccon" poderia indicar uma composição fraca, mas é muito boa, com interpretação vocal muito boa: McCartney imita uma espécie de sotaque do sul dos EUA para uma faixa que depois da introdução de acordes se torna um folk das antigas (quando ingressa a bateria e o honk-tonk piano executado por George Martin). As músicas cantadas por Ringo Starr são geralmente bem agradáveis, e aqui também é o caso com "Don´t Pass me By". "Parabéns a Você" parece que é a música que mais produz direitos autorais, e é realmente universalmente conhecida, além de ter boa melodia. É o tipo de música imbatível. Os Beatles não se tremeram e fizeram uma música de aniversário bem rocker e muito boa, com guitarras elétricas e distorcidas: "Birthday" abre o segundo disco do álbum branco e é muito boa. Conforme a wikipedia, é a única faixa no disco na qual Lennon e McCartney dividem os vocais principais, sendo que Paul participa com registros de voz bem altos. "Yer Blues" é um bom exercício de blues, com as típicas pausas de guitarra e bateria entre os versos. O andamento todo é um blues bem familiar, e depois das paradas ainda segue para um outro andamento típico e bem faceiro de blues. Há muito que conheço de nome "Helter Skelter" e o quanto bandas de hard rock fazem covers e tudo mais. Pois de fato é uma excepcional e memorável composição de McCartney, praticamente uma gênese do hard rock pelos acordes com guitarras bem distorcidas e o refrão com um lick descendente dobrado no baixo e guitarra. Aparentemente o baixista queria compor uma música bem barulhenta, e a sessão de gravação resultou em quase 20 takes, tendo sido selecionado o último para o disco, e essa é a explicação para o desabafo de Ringo ao final "I´ve got blisters on my fingers". "Revolution 1" é a versão acústica para a que apareceu de forma elétrica no single "Hey Jude". A melodia da voz é muito boa, e acompanha bem os versos. "Honey Pie" lembra as músicas de Paul em "Sgt. Peppers" tipo "Fixing a Hole" e "Getting Better", dentre outras. "Revolution 9" é um conhecido exercício dos Beatles, capitaneados por Lennon, nos conceitos de música concreta, e um dos mais remotos exemplos de "sampling". Além disso, conforme a wikipedia, serviu como mais um dos fatores que levaram a alguns acreditar na lenda da morte de Paul. "The White Album" é um notável disco dos Beatles, e marcou provavelmente o início do fim do quarteto fabuloso.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

The Beatles remastered - "Magical Mystery Tour" (1967)

É comum que grandes artistas lancem coletâneas, ou discos ao vivo, ou álbuns com sobras de estúdio. No caso dos Beatles, poucos dias após soltarem “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”, o quarteto já registrava novas composições. Seis delas foram reunidas para um grande EP, lançado para coincidir com o Natal de 1967 e servir de trilha sonora para o filme homônimo exibido pela TV britânica. Nos EUA, a gravadora entendeu inaceitável o formato e resolveu lançar o LP com o acréscimo de músicas compostas anteriormente e lançadas em formato single. Esse é o formato que prevaleceu, e assim “Magical Mystery Tour” é considerado um álbum dos Beatles. A versão que tenho em casa é a única não adquirida na Cultura/Saraiva, pois veio de Londres em viagem recente do meu pai (valor em euro está no adesivo colado na capa do CD). O encarte, cheio de fotos, dá conta da fase psicodélica da banda. É forçoso admitir que, apesar de algumas músicas clássicas, o disco não é dos mais fortes da discografia do quarteto. A faixa-título inicia os trabalhos e contém várias mudanças de andamento, e no final há uma sugestão de uma jam que poderia ser muito interessante. “The Fool on the Hill”, de McCartney, é a quarta de um quarteto de músicas belíssimas que identifico em alguns discos; as outras são “Nowhere Man”, “If I Fell” e “And I Love Her”. O que há de comum, em todas, é a excepcional melodia dos vocais, marcante e memorável. “Flying” é um instrumental dispensável, com extensa utilização do Mellotron. “Blue Jay Way” é daquelas que nos fazem dar razão a George Martin e McCartney, que não costumavam abrir muito espaço para composições de Harrison (evidentemente que o guitarrista era competente para fazer clássicos tão bons quanto Lennon & McCartney, mas aqui não é o caso). “Your Mother Should Know” é outra das boas de Paul, e “I Am the Walrus” parece ser bastante popular e é cheia de histórias (convém ouvir e prestar atenção na utilização, conforme a Wikipédia, de todos os acordes maiores ou com sétima – A, B, C, D, E, F, e G -; além disso, Lennon tomou notícia de que algumas letras dos Beatles serviam para aulas escolares, então o cara resolveu criar os versos mais confusos e incoerentes possíveis). É fácil perceber que o modo de cantar de Lennon influenciou grandemente as bandas de brit pop dos anos 1990. “Hello, Goodbye” é das composições faceiras de McCartney, e me faz lembrar seu trabalho solo desenvolvido nas décadas seguintes. Das quatro últimas faixas do disco, três são muito conhecidas: “Strawberry Fields Forever” e “Penny Lane” foram lançadas como single juntamente com o disco “Sgt. Peppers”. A primeira tem uma base muito boa e sinistra, contrastando com os vocais melodiosos (“straw-berry-fi-elds-fo-re-ver”). A segunda tem versos saborosos. “All You Need is Love” é universalmente conhecida pelo refrão, ao qual todos atribuem mensagem pacifista típica de Lennon. Mas a música é fraca, particularmente, embora admita que a estrutura da faixa é complexa, com múltiplos andamentos diversos do tradicional 4/4 (conforme a Wikipédia, é a única faixa, ao lado de “Money” do Pink Floyd composta em andamento 7/4 a alcançar o top 20 nos EUA). “Baby You´re a Rich Man” não é clássica e também é fraca, com refrão repetindo o título da música.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Resenha de livro - "The Rough Guide to Jimi Hendrix" (Richie Unterberger)

A afinidade com o formato do “Rough Guide” sobre bandas e músicos já se verificou desde a leitura do primeiro volume que encontrei, dedicado ao Pink Floyd. Depois deste, li o do Led Zeppelin, sobre Heavy Metal (ainda não finalizei), dos Stones, e dos Beatles (ainda não finalizei). Em regra, é bom ler esses livros sobre bandas consagradas em relação às quais ainda não tenho conhecimento profundo, pois abrange biografia, resenhas de discos e melhores músicas, fatos pitorescos, projetos paralelos, dentre outras coisas particulares. Então não tive dúvidas de trazer para casa o “Rough Guide” do Jimi Hendrix – que nem sabia da existência – quando localizei na Cultura por menos de 30 pila. E indiscutivelmente é o melhor que já li da série.

Diferentemente do “Rough Guide” do Zeppelin, dos Stones e dos Beatles, a leitura guia sobre Hendrix é bem fluida e pacífica, pois o autor tem estilo simples e direto de escrever. Então, é o melhor de ler de capa-a-capa. Basicamente todas as lendas que já tinha ouvido sobre Hendrix são tratadas no livro (p. ex., a de que se eu encontrasse Hendrix, na época, e dissesse que toco guitarra e componho umas músicas, ele me convidaria para uma jam no Eletric Lady), e ainda há o acréscimo de várias informações relevantes (antes da fama, o cara havia feito parte da banda de apoio de vários artistas, dentre os quais Little Richard).

O autor preza bastante pela formação do Experience, e até faz pouco caso (ainda não sei dizer se acertadamente; provisoriamente, entendo que não) da Band of Gypsies (que só lançou o registro do mesmo nome, ao vivo). Via de regra, esses rough guides se destinam ao grande público, e não exclusivamente a músicos, mas há algumas informações importantes sobre música durante o texto. Além disso, há um notável capítulo dedicado a tentar esclarecer a razão de Hendrix ter sido um espetacular guitarrista: o autor, então, fala das técnicas guitarrísticas (as alavancadas, p. ex.), dos instrumentos e equipamentos (desde a guitarra Fender Stratocaster, até os amplificadores Marshall e os efeitos fuzz, phaser/flanger, univibe, e o clássico wah-wah), e até das mãos de Hendrix (que, por serem grandes – apesar do cara não ter altura acima da média -, facilitariam a execução de técnicas inusitadas ou de outra maneira não possíveis, como utilizar o polegar da mão direita – no meu caso, que sou destro, esquerda - para tocar as cordas mais graves, ou fazer bases e solos simultaneamente). A par disso, há as tradicionais resenhas dos discos, aparentemente adequadas; como Hendrix lançou apenas quatro discos oficiais, o autor se esmerou na garimpagem do sem número de coletâneas e bootlegs, indicando os mais preciosos.

Digno de atenção são os registros dos bastidores dos shows históricos (Monterey, Woodstock, dentre outros). No decorrer do texto aparecem sugestões de algumas pessoas sobre qual caminho Hendrix percorreria não fosse sua morte prematura, e felizmente o autor não se dedica fortemente a esse exercício místico. Tanto quanto outros artistas, entendo que Hendrix teria uma fase de excepcional criatividade (a inicial), seguido de períodos de forte declínio (possivelmente alternaria o lançamento de discos bons), e dependendo do seu estado físico/mental e de seus compromissos empresariais, poderia nos dias atuais ser bem sucedido como Ozzy Osbourne ou os Stones (Keith Richards e Mick Jagger), ou vítima de suas circunstâncias como James Brown. Fui atrás dos CDs do guitarrista (tenho apenas o “Band of Gypsies” e o duplo de “Woodstock”) e incrivelmente não encontrei em lugar algum, e me questiono se esse desaparecimento das prateleiras não quer significar um relançamento portentoso em novas edições remasterizadas, com bônus, e tudo mais (em 2010 completam 40 anos da morte do guitarrista).

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

The Beatles remastered - "Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band" (1967)

Decididos a não fazer mais shows, os Beatles se dedicaram à tarefa de compor discos de estúdio e para isso utilizaram-se de cada vez mais tempo para as gravações e mixagens. No ápice de sua fase psicodélica (dentre outras coisas, Harrison foi para a Índia para tomar lições de cítara com Ravi Shankar), a banda adotou um conceito de "banda fictícia" e incrementaram as técnicas inovadoras em estúdio para "Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band". O resultado é um disco que frequenta as primeiras posições de todas as listas de melhores álbuns de todos os tempos (e isso inclui até as listas de melhores capas de discos da história). A faixa-título inaugura a audição e, caso tivesse andamento mais rápido, e sem os sons de plateia e instrumentos de sopro, seria um hard rock primitivo, especialmente pelos acordes durante o refrão tocados com pausas (talvez não por acaso Jimi Hendrix tenha homenageado a banda tocando a faixa poucos dias após o lançamento do álbum). Uma das mais conhecidas composições é "With a Little Help From My Friends", cantada de forma competente por Ringo Starr, com os primeiros versos da letra sobre todos nós que não sabemos cantar e desafinamos na primeira nota. Na linha de encontrar evidências dos Beatles no som das bandas que lhes sucederam, ouço as linhas de baixo de "With a Little Help From My Friends" (com notas bem agudas no início), de "Lovely Rita" e de "Getting Better" e penso em Chris Squire do Yes. Outra que é universalmente conhecida é uma de Lennon, "Lucy in the Sky With Diamonds", em relação a qual há um senso comum de que se trataria de uma música sobre LSD (ou pelo menos com referência no título), mas o compositor defendeu a tese de que é apenas uma expressão de seu filho a partir de um desenho infantil. "Getting Better" é uma daquelas canções legais de McCartney. com boa linha de baixo, levada interessante na bateria, refrãozinho bacana e astral para cima. E é exatamente o mesmo que se pode dizer de "Fixing a Hole". Igualmente típicas são as composições melódicas e delicadas de McCartney, e nesse caso é "She´s Leaving Home" com orquestrações e tudo mais. Harrison teve mais uma oportunidade para exercitar sua cítara em "Within You Without You". "When I´m Sixty Four" é de McCartney e é muito boa, com estilo de som mais antigo (pelo andamento, acompanhamento da bateria e dos instrumentos de sopro), e influenciou Freddie Mercury para algumas composições do Queen nos anos 1970 e provavelmente serviu de inspiração para Gene Simmons compor a letra de "Goin´ Blind" para o 2.º disco do Kiss ("Hotter Than Hell", de 1974). "Good Morning Good Morning" começa meio caótica, mas tão logo entram os versos se ouve uma faixa boa de Lennon com andamento diferente do 4/4 e inusual no rock (os compassos ora se extendem, ora terminam antes do "previsto", técnica muito familiar ao rock progressivo, e não por acaso se diz que uma das raízes do rock progressivo é "Sgt. Peppers" - há quem sustente que se trata do primeiro disco de rock progressivo). No final dessa "Good Morning" ouve-se um bumbo duplo na bateria de Ringo Starr (ou posso estar enganado...). A reprise do tema da faixa-título conta com umas guitarras bem sacadas e umas pequenas frases de solos de Harrison. A faixa mais típica de Lennon é a primeira parte da faixa que encerra o álbum e é considerada clássica: "A Day in the Life". Depois de uns truques de estúdio ("orchestral crescendo" conforme o wikipedia), a música dá uma acelerada a partir de um despertador, e a parte conduzida por McCartney é melhor. Volta-se, depois, para os acordes calmos da primeira parte, mas com a pulsação do baixo. Ouve-se, novamente, o "orchestra crescendo" que culmina no famoso acorde (E) tocado em 3 grandes pianos simultaneamente. Correndo-se o risco de simplificar demasiadamente as coisas, "A Day in the Life" são duas músicas compostas separadamente, reunidas em 4 min e pouco, com o acréscimo de truques sofisticados de estúdio, e assim se fez o que se chama de primeiro épico do rock em pouco mais de 4min. Mais difícil, porém, do que compor um disco tão consagrado, é mandar ver no disco subsequente, e os Beatles se desencumbiriam satisfatoriamente dessa tarefa com o tradicionalmente conhecido como "Álbum Branco". Antes, no entanto, a fase psicodélica ainda rendia frutos com mais uma trilha-sonora de um filme da banda.

sábado, 24 de outubro de 2009

Discos Essenciais - Rolling Stones "Steel Wheels" (1989)

Pelo que ando lendo, parece que se formou um consenso de que (a) “Tattoo You” foi o último grande disco dos Stones, e que (b) “Start Me Up” é o último clássico composto pela banda. Durante os últimos 10 anos convivi com a noção de que todo o material lançado desde então (início dos anos 1980) não prestaria. A leitura do “Rough Guide”, por si só, não contribuiu decisivamente para alterar essa ideia, então resolvi aproveitar os remasterizados a partir dos anos 1970 e escolher alguns para aquisição. As primeiras escolhas foram boas, então, como geralmente acontece, me empolguei e estou trazendo para casa esses discos todos, na medida do possível. Dentre estes, o que se destacou foi “Steel Wheels”.

Lançado em 1989, “Steel Wheels” representou a reativação da parceria entre Jagger e Richards, que andava conturbada nos anos anteriores (Jagger decidiu concentrar-se na carreira solo e queria incorporar novos sons ao estilo dos Stones, para torná-la mais contemporânea). A turnê subsequente foi um daqueles grandes exemplos de mega espetáculo, não tendo escapado o registro em disco (“Flashpoint”).

O mais importante, no entanto, é que “Steel Wheels” é um disco com excelentes composições. Há um número significativo de bons momentos de guitarra, tanto nas músicas rápidas quanto nas baladas. Gosto bastante de “Rock and a Hard Place”, seguramente a melhor faixa, que é um baita rock com belo refrão (os backing vocals femininos são muito efetivos). Nota de rodapé: alguém reparou que no filme dos Simpsons há uma cena na qual Homer está pendurado junto a uma bola para destruição de prédios, e fica batendo numa grande pedra (rock), de um lado, e em um bar chamado “A Hard Place” de outro? A faixa de abertura, “Sad Sad Sad” é outro rock acelerado dos bons, e ambas as faixas constam do álbum ao vivo “Flashpoint”.

Parece-me que se a segunda faixa de um disco dos Stones for boa, então o disco inteiro é bom, e esse é o caso de “Steel Wheels”, no qual a segunda faixa é “Mixed Emotions”, com um som típico da banda (as guitarras soam minimalistas e os acordes aparecem em blocos induzidos pela linha de baixo e pelos teclados e pianos).

Em algumas músicas o timbre das guitarras é magnífico, e é precisamente isso que melhor aparece em “Terrifying”: trata-se de uma música com um acorde staccato repetido durante os 3min e meio da faixa; o timbre da guitarra é limpo e cremoso, característico de uma Fender Strato/Telecaster com um pouco de chorus.

O melhor riff do disco é o de “Hearts for Sale”, com uns hammer-nos e pull-offs hipnóticos. Esse riff espetacular inicia a música e aparece no refrão, com boa melodia no vocal (com backings femininos). Por sua vez, o melhor solo de guitarra aparece em “Hold On to Your Hat”, com frases rápidas condizentes com o andamento acelerado da música (aparentemente todos os solos são de Keith nessa faixa, pois Ron Wood não é creditado no encarte do CD).

“Almost Hear You Sigh” é uma das minhas balada favoritas dos Stones, com bons vocais e excelentes complementos guitarrísticos entre os versos (até a Sabrina curtiu ouvindo no carro). Nessa categoria há ainda uma outra composição bonita: “Blinded By Love” lembra músicas dos Eagles (tipo “Tequila Sunrise”, dentre outras), e os vocais alcançam graves bem baixos para Mick Jagger, e me parece que é difícil para alguém cantar mantendo a afinação em todos os versos.

Reparei que Keith Richards costuma cantar umas duas faixas em cada disco, e entendo que suas melhores contribuições (pelo menos do que ouvi até agora) estão em “Steel Wheels”. Então, diria que o melhor rock cantado por Richards é “Can´t Be Seen” (que também se destaca pelas guitarras, com riffs e licks legais com timbres típicos de Stratocaster/Telecaster, e ainda um timbre muito bom; gosto bastante também do timbre dos teclados, que é bem conhecido e datado – ou brega - , mas se encaixa perfeitamente para sublinhar os versos “I Just can´t beeeee”), e a melhor balada cantada por Richards é “Slipping Away” (é uma faixa lenta de muita categoria, com um solo de violão de cordas de aço que começa matador; os vocais de Keith são muito bons, rasgados e sofridos, bem de acordo com a música).

“Continental Drift” me pareceu longa demais, embora pareça uma tentativa de Jagger de escrever uma música mais diferenciada e em homenagem a Brian Jones (pela utilização de músicos orientais). “Break the Spell”, por sua vez, é como um exercício de rock/blues acelerado e marcado do tipo Bo Diddley (destaque para a linha de baixo de Ron Wood).

Acredito que sempre será o caso, mas é bom enfatizar os excelentes vocais de Mick Jagger, backing vocals posicionados em algumas faixas com moderação, e umas guitarras muito boas de Keith Richards e Ron Wood. Embora Wood tenha registrado o baixo em algumas faixas, percebe-se que Bill Wyman é um baixista competente, como se ouve em “Mixed Emotions”, “Terrifyng”, “Hearts For Sale” e “Rock and a Hard Place”.

Ouvindo discos dos Stones como “Steel Wheels” é que comecei a compreender o que deve significar AOR (adult oriented rock), sobretudo pelas composições maduras e consistentes da maior parte do repertório desse álbum.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Discografia Dream Theater - Parte XIV e final: "When Dream and Day Unite" (1989)

Antes de “Images and Words”, o Dream Theater lançou um disco (o seu primeiro) com Charlie Dominici como vocalista. A primeira vez que ouvi alguma coisa de “WDADU” foi no disco ao vivo “Live at the Marquee”, no qual constam as excelentes “A Fortune in Lies” e “Another Hand/The Killing Hand”. Posteriormente tomei contato com a instrumental “Ytsejam”. “WDADU”, propriamente, só fui ouvir lá por 1999/2000 quando o Bruce adquiriu-o, possivelmente no Ebay. É inegável que, apesar de estranharmos o vocal de Dominici (digamos que ele não é tão bom quanto LaBrie), bem como os timbres datados de Kevin Moore, as composições desse primeiro disco da banda são muito boas, e desde logo a impressão foi sempre positiva. Acabei adquirindo o disco na Boca do Disco, numa das poucas vezes que sai ganhando do dono da loja (havia perguntado o preço de vários CDs do balcão/balaio que não tinham etiqueta, e sempre a resposta era R$ 15,00; quando vi “WDADU” levantei e não dei margem para controvérsia: “esse aqui é 15 pila também, certo?”; na hora de pagar é que ele percebeu que o disco era importado e que poderia ter tirado mais uns 5 ou 10 reais, mas aí entendo que é o risco do negócio – e provavelmente não teria levado para casa o CD).

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

The Beatles remastered - "Revolver" (1966)

Seguindo a tendência manifestada no "Rubber Soul", os Beatles se dedicaram a compor faixas mais elaboradas em estúdio. Em 1996 os caras fizeram sua última turnê, e a partir daí não fizeram mais shows, embora eu nunca tenha compreendido exatamente o porquê da banda querer se afastar das apresentações ao vivo (se diz que as turnês eram cansativas, que as fãs gritavam tão alto que ninguém ouvia o som dos amplificadores Vox... bem, os Beatles não eram a única banda que fazia shows, e não lembro de ter lido algo similar em relação aos Rolling Stones... além disso, no youtube estão disponíveis vídeos de um show da época, no Shea Stadium, nos quais a banda parecia bem a vontade e tocando muito bem). Em "Revolver" se diz que há maior presença de guitarras elétricas, e isso fica bem marcante na faixa de abertura, "Taxman", de Harrison, que tem uma excelente linha de baixo (um Rickenbacker?), mas os acordes executados sobre "tax-maaan" acabam soando meio repetitivos e comprometem a audição. A composição mais notável é indiscutivelmente "Eleanor Rigby"; todos contribuiram com versos para a letra e melodia de McCartney e George Martin foi responsável pelo arranjo do duplo quarteto de cordas. É a típica faixa que se descobre coisas diferentes a cada audição: primeiro com atenção na melodia dos vocais, depois nas melodias dos instrumentos de cordas. Realmente uma música sem precedentes, e é por aí que McCartney é o meu favorito Beatle. Ainda há espaço para músicas que poderiam ter sobrado das sessões dos discos anteriores, como é o caso de "Here, There and Everywhere" e "I´m Only Sleeping", mas há algo de sofisticado nos solos de guitarra desta última (com efeito inusitado de-trás-para-frente). Particularmente não sou fã dos sons de cítara, a não ser quando usados com moderação; pois Harrison resolveu dedicar uma música inteira para o instrumento - "Love You To" - na qual se percebem influências a serem exercidas sobre as bandas de brit pop dos anos 1990 pelo estilo dos vocais. A minha favorita do disco é "Yellow Submarine", simples com uma meia dúzia de acordes num violão de cordas de aço, uma letra com melodia adequada para o timbre de Ringo Starr, e um refrão muito marcante com vocais harmonizados (parte sobe o tom, parte desce o tom). "She Said She Said" se beneficia das linhas de baixo de McCartney e de uns licks de guitarra elétrica, bem como, finalmente, da levada sofisticada (para esse tipo de música) de bateria, que pontua bem as diferentes partes e pausas (é possível que haja umas mudanças de andamento do tipo 4/4 para 7/8, alguém pode esclarecer melhor). Gosto de identificar músicas dos Beatles "homenageadas" por artistas posteriores, e acho que "Good Day Sunshine" é o caso de composição levada em conta por Freddie Mercury quando escreveu algumas para o Queen, do tipo "Seaside Rendezvous", notadamente pelos versos e partes de piano. Em todo o caso, a faixa de McCartney tem um refrão bem melódico (simplesmente repete o título da faixa, mas de um jeito cativante). "And Your Bird Can Sing", de Lennon, é uma faixa que alia as qualidades dos vocais harmonizados dos primeiros discos e os timbres de guitarra elétrica das composições mais recentes. Os destaques são o baixo de McCartney (mais uma vez, com várias notas e melodia bem diferente da do resto da música), os vocais, e os licks e riffs de guitarra, sobretudo um bem longo que serve de solo ao final da faixa. Trata-se de uma faixa excepcional, e é incrível como uma música tão boa sequer ultrapassa a marca dos 2min. Em "For No One" temos mais uma comovente de McCartney, conduzida por cravo, piano, baixo e instrumentos de sopro (além da bateria, apenas marcando o tempo). "Dr. Robert" até poderia ser uma daquelas dispensáveis, não fosse pela linha de baixo, os vocais, as guitarras elétricas, e uma parada na música que fica suspensa com uns acordes de órgão Hammond. "I Want to Tell You" é popularmente conhecida como uma de Harrison com letra sobre sua dificuldade de se expressar em palavras; é conduzida por baixo e piano bem pontuados, e um riff de guitarra insidioso que abre e fecha a música. "Got to Get Into My Life", de McCartney, é muito boa e tem clima para cima e extenso uso de instrumentos de sopro (mais uma vez a linha de baixo é bem "pontuda"). Se há uma faixa que pode servir para caracterizar os Beatles à época poderia ser "Tomorrow Never Knows": há uso severo de sons inusitados, um loop insistente de bateria e baixo e vocais de Lennon que me lembram os de Don Dokken em "Hole in My Head" do álbum "Dysfunctional". São muito interessantes as descrições de todas as faixas no wikipedia (em inglês) desse clássico da discografia Beatle.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Shows XXVII - Stratovarius (Bar Opinião, 19.10.2009, 21h)

Stratovarius em Porto Alegre (Bar Opinião, 19.10.2009)
Em 2005 estive no show do Stratovarius no Opinião; à época, a banda estava na turnê de um disco (“Stratovarius”) sem inspiração, decorrência de um tumultuado período no qual foram veiculadas diariamente notícias esdrúxulas sobre a banda (Timo Tolkki teria sofrido um colapso nervoso, hospitalizado com cortes produzidos por ele mesmo, depois o cara divulgou que a banda retornaria sem Timo Kotipelto e com uma vocalista nova, até que em determinado momento a banda teria encerrado atividades... e depois voltou, com a formação inteira, disco novo, e tudo mais... eventualmente perdi a paciência de acompanhar as declarações acaloradas de parte a parte). Agora se sabe, pelas palavras de Tolkki, que tudo aquilo foi orquestrado pela banda e pela gravadora. Seja como for, o show de 2005 em Porto Alegre foi muito bom, conforme escrevi na oportunidade. Não muito tempo depois, porém, Tolkki resolveu sair da banda e num pedaço de papel outorgou aos remanescentes todos os direitos de exploração da marca e do catálogo do Stratovarius, numa manobra que me parece fraca para tentar provar algum ponto (tipo, de que ele, ao contrário de Kotipelto, Jörg Michael e Jens Johansson, não se importa com o dinheiro). Nada disso me importa, no entanto. É indiscutível que o Stratovarius lançou bons discos e compôs boas músicas, então ainda acompanho a banda tanto quanto possível (em Buenos Aires achei o “Infinite” com faixas bônus e preço bom, e na Fnac consegui com bons preços o “Visions” e o “Destiny”). Pois para continuar a banda e para a vaga de Tolkki foi recrutado Matias Kupiainen, um guitarrista finlandês de 25 anos, e recentemente foi lançado um disco inédito com a nova formação, “Polaris”.

Com as coisas mais favoráveis particularmente nesse segundo semestre, fui ao Opinião pouco antes do horário agendado para o início do show (21h) e encontrei uma grande fila do lado de fora (pena que deu desencontro com a Elenise para levar umas cervejas e animar um pouco a espera). Menos de meia-hora depois, já estava me posicionando à esquerda de frente para o palco, e consegui um lugar bom para me apoiar e registrar alguma coisa.

Os roadies fizeram uma espécie de passagem de som na frente de todos, e lá pelas 21h30min ouviu-se a introdução de “Destiny”. Johansson está com a fisionomia de sempre (o cara parece não envelhecer), ao contrário de Michael (com cabelos brancos e mais barrigudo – e com menor técnica na bateria...); Kotipelto me lembrou o tempo todo o grande Dioberto (parabéns pela participação no Huck), tanto nos vocais como nos trejeitos e na presença de palco; lembrava que o baixista Lauri Porra era magro, mas não que era um cara tão novo; e o novo guitarrista Kupiainen é do tipo rechonchudo, como era o Tolkki.

Destiny



Independentemente disso, Matias mostrou que está com a técnica na guitarra em dia, pois o cara mandou ver nos arpejos com “sweep picking”, bem como nas palhetadas rápidas de músicas difíceis como “Speed of Light”. Lembro que no show de 2005, Tolkki dava uma enganada forte naquelas pausas da banda nas quais ele tocava frases rápidas (e muito legais) na guitarra; Kupiainen, de pé, executou tão bem quanto possível esses padrões que são difíceis de tocar mesmo sentado com a guitarra bem próxima do pescoço (acho que só em estúdio para alguém tocar esses trechos que, em si, não parecem difíceis, mas da maneira como se posicionam na música demandam muita precisão – um vacilo e já era o momento). Antes dessa, porém, os caras tocaram uma das minhas favoritas, “Hunting High and Low”; apesar disso, achei que a interpretação não foi memorável (ou então já não me empolgo tanto com algumas músicas que já ouvi tanto e por tanto tempo).

Hunting High and Low & Speed of Light



Em seguida os caras emendaram outra das boas, “The Kiss of Judas”, com direito a final estendido, bem como a solos personalizados de guitarra.

The Kiss of Judas.



Era inevitável a execução de músicas do disco novo, “Polaris”, sendo certo que eu não conhecia nenhuma das faixas. Kotipelto anunciou e os caras tocaram “Deep Unknown”, que contém riffs claramente não-Tolkki (o riff dos versos tem um groove que Tolkki jamais empregou no Stratovarius).

Deep Unknown



Kotipelto anunciou, então, que a música seguinte aparentemente nos seria muito familiar, pois a melodia lembraria alguma música de criança ou algo do tipo; na verdade lembro que o Valmor/Bruce costumava brincar que o riff de teclado inicial de “A Million Light Years Away” era igual à melodia de “Amigo” do Roberto Carlos, então é possível que seja essa a referência de Kotipelto. Em todo o caso, gosto dessa faixa de “Infinite”, pelo menos a versão de estúdio; ao vivo ficou clara a dificuldade do vocalista de cantar o refrão, o que é plenamente admissível (essa faixa foi gravada há quase 8 anos e a banda não baixou a afinação para facilitar as coisas para o vocalista) e não prejudicou significativamente a performance.

A Million Light Years Away



Então seguiu-se um dueto de solo de baixo e teclado, e depois um solo de teclado (Johansson empregou apenas um Yamaha DX-7). Ao final, a banda executou uma faixa lenta do disco novo, “Winter Skies”, e aproveitei a oportunidade para tirar fotos.

Lauri Porra & Jens Johanson – dueto e solo de teclado


Gosto de shows com set list surpreendente, ou com faixas obscuras, e a banda tocou uma composição de Johansson para o álbum “Infinite”; “Phoenix” tem estrutura bem convencional para a banda e ficou muito bem ao vivo.

Phoenix



A banda cedeu espaço para os solos de guitarra e baixo. Inicialmente, Matias Kupiainen e Porra duelaram, e depois Porra ficou sozinho no palco e assim como 2005 se aproveitou do fato dos brasileiros gostarem bastante do seu nome e tocou uns riffs e solos bem legais no baixo, com umas pausas para gritar “que Porra!”, e a galera prontamente aderiu. Indiscutivelmente foi um grande momento da apresentação da banda, e Porra demonstrou saber comandar uma plateia.

Matias Kupiainen & Lauri Porra – duelo e solo de baixo



Matias fez seu solo de guitarra com muitos arpejos e sweep picking, e então Porra se juntou a ele para tocarem parte de uma instrumental de um disco antigo (“Stratosphere”?).

Matias Kupiainen & Lauri Porra – solo de guitarra e “Stratosphere”?



Kotipelto anunciou que a seguinte seria uma faixa do “Fourth Dimension”, e aqui seria a oportunidade para tocarem uma das minhas favoritas (“Distant Skies”), mas os caras optaram por uma das consagradas, “Twilight Symphony”, que, inobstante, tem realmente um bom refrão e gosto do riff ascendente executado antes dos versos, sem contar ainda os trechos eruditos com guitarra/baixo/teclado.

Twilight Symphony


Mais uma do disco novo. Evidentemente que não consegui identificar, e nem ia registrá-la, mas reparei que o riff inicial de guitarra era interessante a ponto de inspirar alguma coisa própria (com a 4.ª corda solta e depois a 5.ª corda solta), então resolvi ir adiante.

Forever is Today



Os roadies trocaram o amplificador de baixo (embora eu não tenha reparado em defeito algum), mas logo no começo de “Eagleheart” o problema foi com o som da guitarra (que não saiu). A banda não parou e tocou até o final; Matias voltou para parte do solo de guitarra e para o término da música, que assim teve a execução prejudicada (embora tenha valido a experiência dos caras de se manterem sossegados e tocarem a faixa na íntegra).

Eagleheart



A banda se despediu e saiu do palco, mas voltaram em seguida para o bis/encore. E mandaram três das melhores composições da banda. “Forever” é a melhor balada composta por Tolkki, e conta com versão matadora no duplo ao vivo “Visions of Europe”.

Forever



Durante muito tempo a minha música favorita do Stratovarius era a faixa de abertura de “Episode”, e essa formação de 2009 executou uma bela versão de “Father Time”, possivelmente a melhor música do show.

Father Time


Para encerrar as atividades, sabia-se que “Black Diamond” seria a última música. Foi a que mais empolgou a galera. Ao final, os caras permaneceram no palco e fizeram a tradicional brincadeira com o público de gritar “um, dois, três, quatro” em finlandês (“yksi”, “kaksi”, “kolme” e “neljä”), oportunidade na qual eles aproveitaram para alimentar a saudável rivalidade entre plateias de cidades e países vizinhos.

Black Diamond


O show foi bom, mas não muito bom, e no meu caso deve ter sido devido ao repertório: no show de 2005 sobraram músicas do “Episode” como “Will the Sun Rise?”, e do “Visions” como “Paradise”, “Coming Home” e “Legions”, sendo certo que pelo menos esta última deveria ter sido revisitada. É positivo o fato da banda não repetir o repertório (seria despiciendo); senti falta, no entanto, de outras músicas do “Fourth Dimension”, ou dos próprios discos posteriores. Valeu, porém, por ver os caras de volta em ação, com formação competente para os shows.

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